União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

Células tronco embrionárias: uma nova esperança para a vida

por André Oliveira 

“Saímos da Idade Média e entramos na Era Moderna; estamos vivendo um momento histórico para a humanidade”. Foi com esta afirmação que a cientista Mayana Zatz – do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP – comemorou a aprovação dos pesquisas com células tronco embrionárias (CTEs) no plenário da Câmara, em Brasília na noite de 02 de fevereiro de 2005. Foram 352 votos favoráveis 60 contrários. O projeto de lei prevê a utilização de embriões inviáveis ou que já estejam há mais de três anos congelados.

A afirmação de Mayana tem fundamento. Segundo pesquisas, estas células têm a capacidade de se transformarem em qualquer tecido ou órgão do organismo humano e num futuro próximo poderão ser utilizados no tratamento de doenças do fígado, rins, pâncreas, coração e até em doenças degenerativa do cérebro como o Mal de Parkinson. Há ainda a “miraculosa” possibilidade de devolver movimentos a portadores de deficiências físicas, como os paraplégicos. Essa habilidade de mutação da CTEs recebe o nome de pluripotencialidade. Segundo o médico imunologista Jorge Kalil, do Hospital Sírio Libanês de São Paulo, há uma perspectiva de tratamentos já para os próximos cinco anos envolvendo esta técnica. 

A Igreja
Mas o que foi recebido pela maioria da população como uma benção – principalmente para os portadores de doenças graves – foi tido como uma afronta às Leis de Deus e um atentado à vida pela Igreja. E neste assunto, não só a Igreja Católica é contra, mas outros segmentos religiosos como o protestantismo – que corresponde aos chamados “evangélicos” – por considerarem que a vida começa na concepção. Os grupos anti-aborto também são contra este tipo de pesquisa, já que ao se extrair uma célula-tronco, o embrião é destruído.

Já a comunidade judaica, representada pelo rabino Henry Sobel, presidente da Congregação Israelita Paulista, é favorável às pesquisas e vêem como uma nova esperança para a humanidade e devem ser levadas adiante. Segundo Henry, o embrião representa um ser vivo em potencial e não um ser humano. Seria ainda uma pretensão comparar esse ser em potencial com a vida alguém de meia idade correndo risco de vida. 

O Espiritismo
Na comunidade espírita, sobretudo, a pesquisas com Células Tronco Embrionárias são o assunto do momento; principalmente porque a doutrina oferece uma visão mais ampla da união do espírito ao corpo, através do processo reencarnatório. Muitos têm se perguntado se é realmente correta a pesquisa e sua aprovação pelo Congresso Nacional. E ainda, qual a posição do Espiritismo frente a este novo capítulo da História?

Para tentar responder a estas questões, vamos buscar informações nas obras básicas e outras complementares de confiança. Antes, vale ressaltar que alguns companheiros de doutrina têm abordado o tema tomando por início de raciocínio o tema “União da Alma e do Corpo” no cap. VII de “O Livro dos Espíritos” por conter na questão 344 o que parece ser a resposta para a questão; no entanto, Kardec começa sua investigação sobre o tema no início do capítulo intitulado “Prelúdios do Retorno”, tendo em vista a compreensão de todo o processo.

Prelúdio significa primeiro ato ou etapa para atingir determinado objetivo; aquilo que antecede algo. Pois bem, vejamos agora o que dizem algumas perguntas ligadas ao nosso questionamento. Os trechos em negrito são meus: 

334. A união da alma com tal ou tal corpo, é predestinada ou é apenas no último momento que se faz a escolha? R:“O Espírito é sempre designado antes. Tendo escolhido a prova a que queira submeter-se, pede para reencarnar. Ora, Deus, que tudo sabe e vê, já antecipadamente sabia e vira que tal Espírito se uniria a tal corpo.” 

Vejam esta outra
336. Poderia dar-se não haver Espírito que aceitasse encarnar numa criança que houvesse de nascer? R:“Deus a isso proveria. A criança, quando deva nascer viável, está predestinada sempre a ter uma alma. Nada é criado sem finalidade.”

Viável quer dizer que ela tenha que sobreviver ao nascimento; que ela viva. 

338. Se acontecesse que vários Espíritos se apresentassem para um mesmo corpo que deve nascer, o que decidiria entre eles? R: “Vários podem pedir; nesse caso é Deus que julga qual deles é o mais capaz para desempenhar a missão à qual a criança está destinada. Mas eu disse: o Espírito é designado antes do instante em que se deve unir-se ao corpo.” 

344. Em que momento a alma se une ao corpo? R: “A união começa na concepção, mas não se completa senão no momento do nascimento. Desde o momento da concepção, o Espírito designado para habitar tal corpo, a ele se liga por um laço fluídico que vai se apertando, cada vez mais, até que a criança nasça; o grito que se escapa, então, da criança, anuncia que ela se conta entre os vivos e servidores de Deus.” 

E por último
356. Entre os natimortos alguns haverá que não tenham sido destinados à reencarnação de Espíritos? R:“Sim, há os que jamais tiveram um Espírito designado para os seus corpos. Nada tinha que se efetuar para eles. Tais crianças então só vêm por seus pais.” 

A seqüência com que se discorreu sobre o assunto mostra um critério tanto de Kardec, quanto dos Espíritos sobre as condições em que se dão o reencarne e consequentemente a união do Espírito ao embrião.

A questão 334 mostra que esta união não é aleatória, mas obedece a um planejamento antecipado, enquanto que a 336 condiciona tal união à sobrevivência ao nascimento, ainda que por poucas horas. Já a questão 338 reafirma a condição de planejamento prévio. Na questão 344, é indicado que passado este processo preliminar é que se dá a união pela concepção. Já a questão 356 é que nos dá uma brecha para tentarmos compreender o assunto de uma forma mais ampla. Esta questão indica a possibilidade de uma gestação inteira ser conduzida sem a presença de um Espírito reencarnante, ocorrendo ela para os pais. Não se daria o mesmo com as CTEs para um outro fim, como o terapêutico, para salvar vidas?

O contexto destas questões nos dá indícios claros de que a fecundação não significa necessariamente que o embrião tenha um Espírito já ligado a ele. Há ainda o automatismo biológico que permite um determinado desenvolvimento de até 7 dias fora do útero materno, segundo a ciência, nos casos de reprodução assistida - o que vai de encontro com as afirmações de André Luiz em "Evolução em Dois Mundos" que enfatiza a forma rudimentar de inteligência presente em todos os organismos vivos.

Assim sendo, a ligação de um espírito ao embrião no momento da concepção não é uma regra geral. 

Parece pouco provável que a espiritualidade invista tempo em embriões que não ofereçam condições de desenvolvimento para uma reencarnação. Nas clínicas de reprodução, a maior percentagem dos óvulos fecundados por técnicas não desenvolve vida; tudo leva a crer que este tipo de "processo reencarnatório" exige um trabalho muito maior da espiritualidade para se consumar. Imaginem mais de 15 óvulos fecundados. Como fazê-los vingar no útero materno carregando consigo outros 15 Espíritos?...

E os embriões congelados? Teriam junto deles Espíritos também "congelados"? Lembremos que são milhares de embriões espalhados pelo país.

Para Durval Ciamponi, em seu livro “Reprodução Assistida à Luz do Espiritismo”, o embrião, enquanto na proveta ou congelado, não é um ser humano. Em seu estudo, conclui que a vida do ser humano começa a partir do momento da união da alma ao corpo e não na fecundação ou da fertilização in vitro. 

Conclusão
A considerar tudo o que discutimos acima, as pesquisas com células tronco embrionárias parecem ter “o dedo da espiritualidade” e a premissa de que a humanidade está conquistando um novos conhecimentos e direitos: formas mais evoluídas de curar o enfermo, levantar o caído. Como Jesus disse ao paralítico: "Toma o teu leito e anda". 

Porém, ainda necessitamos de informes do plano espiritual para amadurecermos o assunto. Enquanto isso não ocorre, teremos tão somente opiniões individuais mais ou menos coerentes de encarnados. Mas uma coisa é certa: tudo tem um fim útil!