União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

Espirito pede para contar sua vida - Era para viver 80 anos, desencarnou aos 58 anos - quer saber por quê?

 

 

 
 
 
 
 
Belarmino Bicas 
 

Depois da festa beneficente, em que servíramos justos, Belarmino Bicas, prezado companheiro a que nos afeiçoamos, no Plano Espiritual, chamou-me à parte e falou, decidido: 


- Bem, já que estivemos hoje em tarefa de solidariedade, estimaria solicitar um favor... 
Ante a surpresa que nos assaltou, Belarmino prosseguiu: 

- Soube que você ainda dispões de alguma facilidade para escrever aos companheiros encarnados na Terra e gostaria de confiar-lhe um assunto... 

- Que assunto? 

- Acontece que desencarnei com cinquenta e oito anos de idade, após vinte de convicção espírita. Abracei os princípios codificados por Allan Kardec, aos trinta e oito, e, como sempre fora irascível por temperamento, organizei, desde os meus primeiros contactos com a Doutrina Consoladora, uma relação diária de todas as minhas exasperações, apontando-lhes as causas para estudos posteriores... 

Os meus desconchavos, porém, foram tantos que, apesar dos nobres conhecimentos assimilados, suprimi, inconscientemente, vinte e dois anos da quota de oitenta que me cabia desfrutar no corpo físico, regressando à Pátria Espiritual na condição de suicida indireto... 

Somente aqui, pude examinar os meus problemas e acomodar-me às desilusões... Quantos tesouros perdidos por bagatelas! Quanta asneira em nome do sentimento!... 


E, exibindo curioso papel, Belarmino acrescentava: 


- Conte o meu caso para quem esteja ainda carregando a bobagem do azedume! Fale do perigo das zangas sistemáticas, insista na necessidade da tolerância, da paciência, da serenidade, do perdão! 

Rogue aos nossos companheiros para que não percam a riqueza das horas com suscetibilidades e amuos, (melindres) explique ao pessoal na Terra que mau-humor também mata!... 

Foi então que passei à leitura da interessante estatística de irritações, que não me furto à satisfação de transcrever: 

- Belarmino Bicas – Número de cóleras e mágoas desnecessárias com a especificação das causas respectivas, de 1936 a 1956 


1811 em razão de contrariedades em família; 

906 por indispor-se, dentro de casa, em questão de alimentação e higiene; 

1614 por altercações com a esposa, em divergência na conduta doméstica e social; 

1801 por motivo de desgostos com os filhos, genros e nora; 

11 por descontentamento com os netos; 

1015 por entrar em choque com chefes de serviço; 

1333 por incompatibilidade no trato com os colegas; 

1012 em virtude de reclamações a fornecedores e lojistas em casos de pouca monta; 

614 por mal-entendidos com vizinhos; 

315 por ressentimentos com amigos íntimos; 

1089 por melindres ante o descaso de funcionários e empregados de instituições diversas; 

615 por aborrecimentos com barbeiros e alfaiates; 

777 por desacordos com motoristas e passageiros desconhecidos, em viagem de ônibus, automóveis particulares, bondes e lotações; 

419 por desavenças com leiteiros e padeiros; 

820 por malquistar-se com garçons em restaurantes e cafés; 

211 por ofender-se com dificuldades em serviços de telefones; 

90 por motivo de controvérsias em casas de diversões; 

815 por abespinhar-se com opiniões alheias em matéria religiosa; 

217 por incompreensões com irmãos de fé, no templo espírita; 

901 por engano ou inquietação, diante de pessoas imaginários ou da perspectiva de acontecimentos desagradáveis que nunca sucederam. 

Total: 16.386 exasperações inúteis. 


Esse, o apanhado das irritações do prestimoso amigo Bicas: 16.386 dissabores dispensáveis em 7.300 dias de existência, e, isso, por quatro lustros mais belos de sua passagem no mundo, porque iluminados pelos clarões do Evangelho Redivivo. 


Cumpro-lhe o desejo de tornar conhecida a sua experiência que, a nosso ver, é tão importante quanto as observações que previnem desequilíbrios e enfermidades, embora estejamos certos de que muita gente julgará o balanço de Belarmino por mera invencionice de Espírito loroteiro. 

Irmão X 
(Do livro: Cartas e Crônicas, psicografia de Francisco Cândido Xavier)