União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

O que pensar da esmola?

Caso 1 - A família de João era composta por 6 pessoas, ele, esposa e mais quatro crianças. A situação financeira estava complicada, João desempregado há muito, a esposa também, viviam da caridade de alguns vizinhos e da cesta básica que João ganhava todo mês da instituição religiosa que freqüentavam. Todos os meses, lá ia João e família retirar a cesta básica que tinham direito, lá chegando, entregavam uma ficha e aguardavam por uma hora até que alguém lhes concedesse o benefício. Eram bem tratados, os voluntários, carinhosamente sempre lhes perguntavam como as coisas estavam se encaminhando, demonstrando preocupação e solidariedade. E assim eram todos os meses, João estendia a mão com a ficha, pegava a cesta básica, respondia as perguntas formuladas pelos colegas e ia embora. Essa situação permaneceu por longos anos, estendendo-se inclusive aos filhos de João, que quando constituíram a própria família, também se tornaram freqüentadores da fila da cesta básica, respondendo as mesmas perguntas e fazendo os mesmos agradecimentos. 

Caso 2 - A família de João era composta por 6 pessoas, ele, esposa e mais quatro crianças. A situação financeira estava complicada, João desempregado há muito, a esposa também, viviam da caridade de alguns vizinhos e da cesta básica que João ganhava todo mês da instituição religiosa que freqüentavam. Todos os meses, lá ia João e família retirar a cesta básica que tinham direito, lá chegando, entregavam uma ficha que lhes concederia o direito à cesta básica, e em seguida separavam-se, onde por uma hora aprenderiam ofícios que lhes garantiriam a oportunidade de ganhar o sustento diário com o suor do próprio rosto. A esposa estava aprendendo a bordar, João fazia um curso de eletricista, e as crianças tinham aulas de educação moral. A situação complicada de João foi logo superada e ele conseguiu colocação no mercado de trabalho graças ao novo ofício que aprendera, a esposa, por sua vez, mostrara-se talentosa na arte de bordar, e com isso, reforçava o orçamento familiar. João logo deixou a fila da dependência da cesta básica, abrindo espaço para que outra família pudesse ter a mesma oportunidade que ele tivera de ganhar o sustento diário através do suor do próprio rosto. 

Diante dessas duas histórias, fica a pergunta: 

Qual o melhor desfecho: João e sua família eternos dependentes da esmola alheia, ou João e sua família apenas se apoiando, porém, aprendendo e conquistando seu próprio espaço? 

Na codificação da Doutrina Espírita, no Cap XI, “Lei de Justiça, Amor e Caridade, na questão de nº 888, Kardec abordou com propriedade este assunto: 

P - 888 O que pensar da esmola? 
R - O homem reduzido a pedir esmola se degrada moral e fisicamente: ele se embrutece. Numa sociedade baseada na lei de Deus e na justiça, deve-se prover a vida do fraco sem humilhação e garantir a existência daqueles que não podem trabalhar sem deixar sua vida sujeita ao acaso e à boa vontade. 

Em sua concepção, ao pedir, o homem se humilha. Ao pedir situa-se em uma posição de inferioridade perante a sociedade, que tristemente traz consigo equivocados padrões de vitória e derrota no palco do mundo. E quer o homem provar a todos que é capaz de manter a si mesmo, como não enxerga possibilidades, desatinado, atira-se ao crime, lançando desafios à uma sociedade que lhe ofertou apenas esmolas e o excesso que havia em suas mesas. Enveredam então por tortuoso caminho, e não raro vêem como diz o dito popular: o sol nascer quadrado. Eis então a violência se proliferando, crimes aumentando, intranqüilidade se espalhando... São assim que muitas mães acabam criando seus filhos sozinhas, sem a presença paterna, que lamentavelmente está atrás das grades. Os filhos então crescem vendo os pais enjaulados, como feras que devem ficar longe da sociedade. Por muitas vezes, na atividade desenvolvida na Casa Espírita, acompanhei a pergunta: “Garoto, onde está seu pai?” 

E a resposta, enroscada nos lábios da criança:”Está preso!” 

Ao adentrar esta questão, Kardec mergulhou fundo em nossos problemas sociais. Se faz mister criar mecanismos para que as criaturas consigam por elas próprias suprirem suas necessidades básicas, onde com honra poderão afirmar que estão no caminho do progresso. Não se quer aqui desmerecer a caridade ofertada à muitas famílias que estão privadas do necessário, o pão que alimenta o faminto é abençoado recurso, todavia, tem efeito de analgésico, é efêmero, com hora marcada para terminar. A intenção é ir além, e mostrar que o pão que alimenta o corpo deve vir necessariamente munido da instrução que alimenta a alma. Mas infelizmente até a “caridade”, se assim podemos chamar, é comercializada. Onde há intenção mesquinha de se perpetuar o poder, existe a caridade de fachada, que constrói pessoas dependentes e facilmente manipuláveis por inteligências que vêem na miséria alheia degraus para sua ascensão. 

A Doutrina Espírita veio disposta a quebrar o circulo vicioso: esmola, dependência, falta de capacitação. Tem ela – Doutrina Espírita, o compromisso de despertar consciências, mostrando uma caridade abrangente, que não se restringe ao momento, a necessidade que urge, mas vai além, e descortina os horizontes do conhecimento, que é o meio eficaz de oferecer às pessoas o campo necessário ao próprio desenvolvimento. 

Quando o ser humano vê que há ambiente propício para seu crescimento, onde caminhos que exploram suas potencialidades são abertos, e que ele poderá prover a vida sua e de sua família de forma digna, dificilmente existe o embrutecimento que o faz retornar as origens primitivas com atitudes incompatíveis com sua condição humana.