União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

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Gente bonita: Preconceito ou ignorância

 

Os leitores desta matéria poderão achar estranho o título “Gente Bonita: Preconceito ou ignorância”; entretanto é uma frase muita usada nos dias de hoje pela sociedade de um modo geral, não importa a classe em que se encontra situada dentro dos padrões ou valores que essa mesma sociedade se colocou em razão dos estudos sociológicos efetuados pelos governos eleitos por todas as categorias denominadas A, B ou C, etc. 

Quando começou essa expressão para classificar ou dividir pessoas pseudo educadas, bem vestidas, poder aquisitivo de razoável para cima, das que não tiveram a mesma oportunidade de outros que residem em favelas, cortiços ou nas ruas e não tiveram a oportunidade de freqüentarem escolas de vários níveis, desempregados, ou que ganham um pequeno salário? 

O que nos causa admiração é que essa expressão “gente bonita” possa partir de pessoas que se dizem religiosas, inclusive os espíritas. 

Lembro-me de ter ouvido pela primeira vez essa frase há um quinze ou dezoito anos atrás, de uma pessoa fazendo comparação dos habitantes de uma cidade para outra. A partir daí era cada vez mais constante ouvir e lê-la em jornais e revistas e principalmente na televisão: uma expressão que soa como preconceituosa, um defeito moral que uma parte da humanidade ainda não se livrou. 

Li recentemente a crônica de um conhecido jornalista onde ele deixa clara a inversão de valores que a própria mídia faz questão de explorar e incentivar. O profissional fala das revistas e da mídia de um modo geral que mostram a todo o momento celebridades “socialites” e do mundo da moda entre outros que em nada contribuem para o progresso social e faz uma comparação com outras pessoas, no caso uma médica brasileira de fama internacional e especialista em doenças do coração que atua no Brasil e Estados Unidos. 

Essa crônica é apenas um exemplo do que se vê na imprensa e na boca das pessoas materialistas que vêem apenas o verniz com que criaturas se disfarçam para esconder as futilidades de que um dia se arrependerão. Os ingênuos espectadores ou leitores seguem esses modismos sem raciocinar no que estão fazendo, pois na verdade estão sendo como disse preconceituosos e discriminatórios. 

O Livro dos Espíritos em seu item 799 nos trás um esclarecimento a respeito do assunto: “De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso? – Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, e fazendo os homens compreenderem onde está seu verdadeiro interesse. A vida futura, não estando mais encoberta pela dúvida, fará o homem compreender melhor que pode, desde agora, no presente, preparar seu futuro. Ao destruir os preconceitos de seitas, de castas e de raças, ensina aos homens a grande solidariedade que deve uni-los como irmãos” (Petit Editora – 1999). 

Parte dos habitantes do Planeta desconhece ou fingem desconhecer a reencarnação dos Espíritos como única forma de evolução da humanidade, principalmente no seu aspecto moral. Interpretam os ensinamentos de Jesus de acordo com suas conveniências, pois não conseguem entender que “Coroados hoje, lavadores de estábulos amanhã”. Não me recordo onde vi ou ouvi essa frase ou pensamento, mas ela é exatamente o que quer dizer de maneira curta e grossa as inúmeras vezes que temos que reencarnar para aprender o que é o Amor, a Humildade, a Tolerância, A Indulgência, o Respeito ao Próximo, etc. Ontem fomos escravos, negros, brancos, amarelos, pobres, ricos, algozes, tiranos, sovinas; e hoje, resgatando nossos débitos do pretérito, podemos ter a forma física bonita ou feia. Como será o Espírito de um favelado que aqui está encarnado a fim de cumprir uma missão, ou seja, um missionário com a finalidade de ajudar a “carregar a cruz” daqueles misérrimos habitantes, intuindo-os ao bem? É bem provável que esses favelados tenham sido em reencarnações passadas, senhores de engenho, escravocratas, nobres, ricos com corações insensíveis (gente bonita, no entender das pessoas que fazem essa discriminação), criminosos, suicidas e sei lá mais o que... 

Quanto às pessoas chamadas de gente bonita, também estão sendo colocadas a prova, pois a beleza é uma prova difícil e para vencê-la é preciso ter fé e forças para passar ao largo da “Porta Larga” (Capítulo XVIII-A Porta Estreita, item 3, O Evangelho Segundo O Espiritismo) e saber usar a beleza que Deus nos concedeu como fases de preparação para evoluirmos. 

As pessoas que se referem a “gente bonita” ou “feia” esquecem-se que os tais feios, tisnados do sol, plantam e colhem, criam e produzem para que os bonitos possam também se alimentar. Que aqueles “feios” de mãos calejadas e testas escurecidas pela graxa das fábricas trabalham para nosso conforto. Que nossos irmãos à beira mar arriscam suas vidas para buscar os saborosos alimentos ricos em vitaminas e minerais e que o sertanejo, resistindo às secas prolongadas do Nordeste Brasileiro, produz, além de alimentos, exemplos de fé e esperança e estoicismo para as pessoas “bonitas ou feias” do resto do Brasil. 

E para encerrar vejamos o que diz o item 814 do Livro dos Espíritos (mesma fonte). – Por que Deus deu a uns riquezas e poder e a outros a miséria? – Para experimentar cada um de maneiras diferentes. Aliás, vós já o sabeis, essas provas foram os próprios Espíritos que escolheram e, muitas vezes, nelas fracassaram. No item 815 a pergunta: Qual das duas provas é a mais terrível para o homem, a miséria ou a riqueza? – Tanto uma como a outra; a miséria provoca a lamentação contra a Providência; a riqueza estimula todos os excessos. 

J.Garcelan
Matéria publicada no Jornal O Clarim novembro/2007, página 5.