União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

Vícios e virtudes

 

 

 

Por Orson Peter Carrara

Habilidades e caracteres morais pertencem ao espírito.

É comum verificar que cientistas materialistas ou pessoas que desconhecem os princípios espíritas atribuam qualidades ou defeitos morais exclusivamente ao organismo físico, como se as virtudes e os vícios fossem atributos do corpo.

Em março de 1869, ano XII, da Revista Espírita* (edição da Edicel, São Paulo), com o artigo A carne é fraca - estudo fisiológico e moral, o Codificador tece importantes comentários sobre a influência do organismo sobre o moral e vice-versa, na atividade e comportamento do homem:

a. "Um homem não é músico porque tenha a bossa da música, mas tem a bossa da música porque seu espírito é músico."
b. "O espírito é o artífice de seu próprio corpo, por assim dizer, modela-o, a fim de apropriá-lo às suas necessidades e à manifestação de suas tendências."
c. "Por conseqüência natural deste princípio, as disposições morais do espírito devem modificar as qualidades do sangue, dar-lhe maior ou menor atividade, provocar uma secreção mais ou menos abundante, de bile ou outros fluidos. É assim, por exemplo, que o glutão sente vir a saliva à vista de um prato apetitoso. Não é o alimento que pode superexcitar o órgão do paladar, pois não há contato; é, pois, o espírito, cuja sensualidade é despertada, que age pelo pensamento sobre esse órgão, ao passo que, sobre um outro espírito, a vista daquele prato nada produz. Dá-se o mesmo em todas as cobiças, todos os desejos provocados pela vista. A diversidade das emoções não se pode explicar, numa porção de casos, senão pela diversidade das qualidades do espírito. Tal é a razão pela qual uma pessoa sensível facilmente derrama lágrimas; não é abundância das lágrimas que dá sensibilidade ao espírito, mas a sensibilidade do espírito que provoca a abundante secreção de lágrimas".

Convidamos o leitor a reler o texto transcrito da Revista Espírita. Se estiver acostumado ao estudo espírita, já entende que o corpo físico é mero instrumento do espírito, pois neste se concentram todas as aquisições morais e intelectuais.

Sendo instrumento, o corpo físico compara-se à ferramenta utilizada para as ações físicas durante a existência corporal. Se o leitor está se aproximando agora dos postulados espíritas, sugerimos estudo e pesquisa em O Livro dos Espíritos para entender em amplitude o texto acima transcrito. 

Na realidade, pelo que aprendemos no estudo da Doutrina Espírita, o espírito é o ser principal e utiliza-se do corpo físico em múltiplas existências corpóreas (em cada existência utiliza um novo corpo, especialmente para as finalidades daquela existência), que está sujeito à direção do espírito, pois que é como se máquina fosse, obedecendo ao comando daquele que lhe é o ser principal.

O mais interessante nesta questão toda é que, através do corpo, nas diferentes experiências vividas na Terra, é que o espírito aprimora-se. De princípio, muito primitivo, vai caminhando e libertando-se da ignorância para alcançar conquistas intelectuais, paralelamente às conquistas morais.

Essas conquistas morais é que lhe determinam as virtudes, que substituem os vícios e defeitos, adquiridos também nas mesmas experiências.

Portanto, em questão de vícios e virtudes, os arquivos estão no espírito, que imprime no corpo suas tendências, manias, comportamento, conduta e direcionamento de suas ações, uma vez que o corpo é instrumento do espírito.

Quando vemos criaturas violentas, orgulhosas, egoístas, há que se lembrar que são características do espírito. O espírito é violento, mesquinho, caprichoso... Um músico, como no usado pelo exemplo acima, mostra que ali está um espírito que aprendeu música e a ela se dedica. Assim como uma pessoa caridosa mostra uma alma caridosa.

Jamais poderemos dizer que "nossa boca" fala mal dos outros. Somos nós mesmos que usamos mal nosso aparelho fonador. Nem tampouco poderemos dizer que "hoje meu obsessor está aqui e estou desequilibrado"; na verdade, eu estou desequilibrado e permito a aproximação do obsessor.

Isto tudo para dizer da importância da vida material que possibilita estas experiências que, repetidas, levam à aquisição de virtudes, razão de nossa presença no planeta.

Quando virmos alguém com atos que reprovamos, lembremo-nos que o espírito ali encarnado está necessitado de correção; pelo mesmo raciocínio, quando sentirmos em nós comportamentos que a consciência acusa, recordemos que não é o corpo que está errando, somos nós mesmos que precisamos modificar o comportamento.

É claro que há um intercâmbio e influência recíprocos entre corpo e espírito, mas os valores deste é que determinam o comportamento daquele, embora os vícios adquiridos pelo corpo material possam causar danos ao espírito. Nesta área é importante citar os prejuízos do cigarro, do álcool ou das drogas que atingem o corpo espiritual e comprometem as existências futuras. Mas nem só esses. A maledicência, a desonestidade, a vaidade, entre outros vícios, praticados pelo espírito através do corpo, a este prejudicam e afetam o espírito, cuja consciência exige reparação em futuras existências, onde novamente modela o corpo para atender suas necessidades de conquistas morais.

Nesta cadeia incessante de experiências, progride a alma imortal. Daí a razão de bem utilizarmos o tempo e as oportunidades da presente existência material.