União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

Solidariedade: Uma lei natural

Octávio Caúmo Serrano 

O roteiro da evolução guarda um tempo milenar

Segundo ensinam os Espíritos, fomos todos criados por Deus absolutamente simples e sem nenhum conhecimento. Antes de ingressar na categoria dos humanos, que é considerada a obra prima da Criação, teríamos estagiado em diferentes condições, aprendendo em todos os reinos da natureza, ainda como mero princípio espiritual. Façamos um passeio por esse caminho evolutivo até chegarmos ao homem inteligente.
Quando éramos ainda a mônada celestial, fomos levados pelas babás da espiritualidade para conhecer as reações dos minerais, dos vegetais e dos animais. No reino mineral, conhecemos o carbono, tomamos contato com a química orgânica e vimos como se processam as combinações. O oxigênio, indispensável à vida, une-se com o hidrogênio, que entra numa infinita série de compostos, para juntos formarem a água. H2O. Sem ela os seres não sobrevivem.
Vimos também que as pedras, aparentemente inertes, têm todo um movimento interior, porque moléculas, átomos e demais partículas infinitamente menores são coesas e nos dão exemplo de união. Aprendemos sobre a evolução quando vimos a simples turfa transformar-se no diamante, o carbono puro.
Conduzidos ao reino das plantas, pudemos observar o acasalamento de uma flor macho e uma flor fêmea ou, em certos casos, das flores autogâmicas em uma mesma árvore. Vimos plantas venenosas, ervas daninhas, árvores frutíferas e medicinais, além das carnívoras. Cada uma num estágio e com função própria. Aprendemos sobre a fotossíntese, conhecemos a clorofila e vimos que as árvores são básicas para a vida animal. Purificam o ar. Nesse reino vimos a sensibilidade. Hoje, e as pesquisas confirmam, há quem converse com as plantas sob a alegação de que elas produzem mais e ficam mais viçosas quando recebem carinho.
Depois dessa etapa, fomos conhecer os animais quando vimos a disciplina e a organização dos agrupamentos. Observamos o formigueiro e ali estavam as cortadeiras, as carregadeiras, as fiscais. Todos trabalhando disciplinadamente sem reclamar ou comparar-se ao outro que estaria fazendo menos ou um trabalho mais leve. O mesmo constata-se entre as abelhas. Sugam o mel das flores e, enquanto fazem seu trabalho, polinizam essas flores para continuar a vida. Alguns insetos fazem o mesmo.
Entre os animais, pudemos observar também a locomoção, a nutrição para a sobrevivência, o acasalamento para manter a espécie, o instinto de defesa e a obediência às leis naturais. Mais tarde, ao iniciar nossa individualidade, estagiamos como alma animal e os primeiros resquícios de inteligência começaram a aparecer, aprimorando o instinto. Finalmente somos um ser humano.
Que aprendemos até aqui? Tentaremos resumir.
Os minerais, como o potássio, o alumínio, o cálcio, o magnésio e tantos outros elementos químicos, na forma de cloretos, sulfatos, nitratos, etc., são fertilizantes das plantas. As plantas, por sua vez, alimentam os animais e oferecem agasalho para que muitos façam em seus galhos sua moradia segura. Os animais, ao comer frutos e lançar dejetos, multiplicam as plantas. São agricultores semeando na natureza. Além desse trabalho, o resíduo que eles expelem também serve de adubo. A água, o elemento indispensável à vida, é um mineral que alimenta todos os demais reinos, além do seu próprio.
Tudo o que relatamos demonstra a solidariedade como lei natural. Nenhum dos atos até aqui relatados tem objetivo egoístico. É tudo automático e natural. Por isso na natureza tudo é harmonia, desde que nós não interfiramos. Após ingressar no reino dos humanos, o homem começa a desenvolver a razão e já não mais age pelas leis naturais. Pensa e cria situações. No início, recém-chegado nessa categoria, comporta-se quase como o animal. Podemos usar como exemplo o nosso índio primitivo, que pesca para comer no dia, dança, banha-se, procria e nada mais o preocupa. Vez por outra, lembra-se de olhar o céu e conversar com Tupã; ele o vê no trovão, mas tem na alma incrustada a intuição do Criador, porque é um de seus filhos e porta em si a natureza divina do Pai.
À medida que nos desenvolvemos, desencarnando e voltando, vamos tendo necessidade de saber mais, ser mais e ter mais. Começamos a ser ambiciosos, egoístas e os valores materiais passam a dominar-nos. Como conseqüência dessas atitudes, nos afastamos do semelhante e cada um deles passa a ser um concorrente; um inimigo. Tudo o que aprendemos sobre solidariedade com a natureza, fica esquecido, adormecido. Passamos a matar e a maltratar os animais, seja para alimentar-nos, seja para divertimento. O tiro aos pombos, a farra do boi, as touradas, as brigas de galo, são pequenos exemplos.
Movidos agora pela ganância, vamos criando tormentos e nos transformamos em alguém que não mais pode ser contentado. Não mais temos o limite do necessário e nos desgastamos pelas conquistas de muitas coisas que nos escravizam e que não têm para nós maior utilidade. Vítimas da dor, buscamos ajuda e passamos a depender da solidariedade. O médium, o passista, o atendente espírita, e os profissionais remunerados vêm em nosso socorro. Começamos a melhorar, mas só conseguiremos a devida melhora quando também nós nos transformarmos em alguém solidário.
O tempo trará de volta à nossa mente tudo o que aprendemos com a professora natureza. Com as pedras, com as plantas e com os bichos e que são a nossa única saída. A nossa razão, que caminha para ser intuição e super intuição, a verdadeira sabedoria, ainda traz um raciocínio voltado para o interior, quando somente na ação de ajuda ao próximo poderemos ter algum sucesso nesta louca caminhada. Somente quando deixarmos os outros participar da nossa felicidade é que o ciclo do amor se completa. Se insistirmos em construir a alegria só para nós, jamais sairemos do lugar.
Julgamos que a leitura atenta deste texto possa ser útil como reflexão para todos nós neste instante de Natal e quando se inicia um novo ano, tempo em que traçamos planos e fazemos promessas.
Boas Festas.

Artigo publicado na RIE (dezembro 2006)