União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

A caridade

 

 

Vinícius Lousada* 

Vós tendes uma senha que é compreendida de um ao outro extremo do mundo: é a caridade.” – Allan Kardec1

Allan Kardec, insigne codificador do Espiritismo, teve a felicidade de grafar em momento oportuno que não existe verdadeiro espírita sem caridade2, colocando-nos no compromisso de buscarmos a caridade como modelo ético comportamental, se almejamos engrossar as fileiras da Terceira Revelação, sem que nossa fé raciocinada se transforme em intelectualismo doentio.

Dessa forma, vamos encontrar sua exortação em relação ao sinal ou senha que os espíritas deveríamos portar para sermos identificados, ao responder o questionamento de um confrade naquela excursão unificacionista, ocorrida nos primórdios de nosso movimento doutrinário, mais precisamente em 1862.

Com a maestria que lhe era peculiar, Kardec aponta que nós espíritas já possuímos um emblema, o da caridade e pela nossa ação no bem seríamos percebidos pelos demais companheiros de ideal, de um lado do mundo ao outro.

A caridade nesse sentido não encontra barreiras nos idiomas, na diversidade cultural, nem tão pouco em diferentes denominações religiosas; ela é inteligível ao leigo, ao religioso, ao culto e ao excluído da instrução.

Todos vendo a caridade em suas mais diferentes expressões são capazes, se o quiserem, de interpretar seu hálito renovador em favor do assistido e sua benesse na experiência vivida de quem a pratica de coração limpo.

A orientação kardequiana é a consagração do proposto pelo Nazareno: “Nisto conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros.”3

A Doutrina Espírita, em sua função de Consolador, vem trazer um novo paradigma comportamental, prescrito pelos Espíritos Superiores em prol da Felicidade Humana e que revive, na sua totalidade, os Ensinos do Celeste Rabi:

 

 

FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO.



No instante que a criatura começa a assimilar os postulados fundamentais do Espiritismo, a caridade deverá ser o crivo normativo de sua conduta em suas relações intra e interpessoais. Fazendo-se presente a assertiva do Mestre, que nos recomenda que façamos aos outros o que gostaríamos que os outros nos fizessem, resumindo aí toda a Sua Boa Nova.

Quando o homem age pontuando as conseqüências de suas ações no coração alheio, a partir da análise consciente do que causaria ao seu tal ação por parte de outrem, a empatia em relação ao outro se estabelece e essa regra de conduta superior lhe permite relacionamentos mais equilibrados, em que o companheirismo sadio vai vencendo o “morbo” da indiferença e começa por descortinar o amor, sentimento capaz de ascender às suas mais elevadas expressões.

Irmã Rosália, ao elucidar a respeito da caridade moral e da caridade material numa comunicação mediúnica formidável4, vai propor como expressão indelével da caridade moral a tolerância, convidando-nos a exercitarmos esta modalidade do Bem, tão esquecida no mundo inferior em que estamos encarnados, em todos os momentos de nossa vida e nos mais diferentes contextos em que possamos estar interagindo com outros espíritos, estejam encarnados ou não.

A tolerância era uma das prerrogativas do notável educador suíço Pestalozzi, em sua proposta escolanovista. Ao respeitar as dificuldades dos educandos, o educador tem em sua ação a ferramenta da perseverança na aprendizagem.

Sem tolerância é impossível educar, sem compreensão das limitações evolutivas do outro, que obstam melhores manifestações comportamentais, é impossível cativá-lo e provocá-lo ao despertamento de seu “deus interno”.

Assim,

essa caridade moral, que pode ser efetuada pelos ricos e pelos pobres indistintamente, vai libertar quem a pratica do infeliz hábito de julgamento das faltas alheias,

já que a caridade não pode dar as mãos à intolerância, exigindo de quem a faz olhares de bondade em relação à vida alheia.

Não consiste num apelo à conivência, ou à instalação de um “farisaísmo moderno”, que tão notadamente corrói nossas relações sociais, mas numa atitude de terna compreensão de que o outro está dando o máximo que pode nesta jornada, e que talvez, nossa opinião pode não estar de acordo com a Lei Natural.

O amor ao próximo, exercitado no “suportarmo-nos uns aos outros”, conduz-nos, inegavelmente à indulgência para com as faltas alheias, aliás, virtude esta que faz parte da definição dos Espíritos Superiores a respeito da caridade5.

A indulgência consiste em não destacarmos os defeitos alheios ou divulgarmos suas faltas, mas questionarmos a nós próprios, quando tentados em nossos julgamentos, que conduta a caridade nos exigiria diante de tal desafio que se apresenta em nossas vidas.

Com certeza, a caridade nos convidaria ao exemplo do samaritano da parábola do Mestre, servir sem exigir, amar sem impor, auxiliar quando e quanto for preciso, sem violência simbólica, manifestada em tantos comportamentos enfermiços que grassam na sociedade hodierna, em relações de dominação egotista promotoras de tantos distúrbios morais e misérias sociais.

Portanto, o apelo de Rosália, em alargarmos nossa faixa de suportabilidade em relação uns aos outros, junto do alerta do codificador, mostra-se a nós como uma manifestação plausível e urgente da caridade, caso consideremos os conflitos familiares, os dramas bélicos e a falta de sentido ético existencial que se enfrenta na atualidade, irresolúvel pelas manifestações teatrais e dogmáticas da fé e sob o prisma do niilismo filosófico, apregoado por tantos sofistas modernosos e incautos.

A caridade, quando bem vivida, sem mecanismos de fuga da necessidade de auto-enfrentamento, que nossa trajetória milenar nos pede com vistas à descoberta da nossa perfectibilidade, pode tornar-se o exemplo de conduta ética que nos cabe enquanto espíritas, capaz de trazer o amor e a renúncia às instituições humanas em detrimento do egoísmo, vício postulado pelos Luminares da Humanidade como sendo o mais radical6, quer dizer, o vício que se constitui na raiz de todos os outros.

Allan Kardec, homem de bem e exemplo de religioso fiel aos postulados abraçados, convoca-nos a estabelecermos a caridade como o emblema pelo qual deveriam ser lembrados os espíritas autênticos, de forma que possamos nos converter verdadeiramente a proposta do Guia de Nazaré, auxiliando sempre na obra do Bem Eterno, tolerando-nos até que consigamos amar-nos uns aos outros como Ele nos ama a todos.

( * ) Expositor espírita, colaborador da S. E. Esperança – Gravataí/RS e da FERGS.

Referências Bibliográficas:

(1) KARDEC, Allan.Viagem espírita em 1862. 3ª ed. Matão/SP: Casa Editora O Clarim, 2000.

(2) Idem.

(3) JO 13:35

(4) KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 230ª ed. Araras/SP: Instituto de Difusão Espírita, 1998.

(5) KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 71ª ed. Rio de Janeiro/RJ: Federação Espírita Brasileira, 1991.

(6) Idem