União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

Desigualdade das riquezas

 Rogério Coelho* 

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“(...) Sempre tendes os pobres convosco, e

podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes...”

- Jesus. (Mc. 14:7.)



Nas primeiras eras da Humanidade, perdidas na noite dos tempos, lá pelos idos da pré-história, o homem, ainda nômade e rude, cujas necessidades básicas outras não eram senão a alimentação e o acasalamento indiscriminado, sem vinculações afetivas e sem compromissos com a responsabilidade, bem à moda animal, (quase como ocorre hodiernamente), verificou que a Vida gregária lhe seria mais conveniente, em todos os sentidos, inclusive para sua própria segurança e garantia de sobrevivência, naqueles tempos de atroz selvageria e promiscuidade...

Deixou, então, a Vida nômade, dando origem aos primeiros aglomerados sociais ainda bastaste rústicos. A Vida comunitária, no entanto, pouco a pouco, foi tomando contornos mais precisos, mais amplos, sendo os produtos da caça, da pesca e os frutos, partilhados – indistinta e igualitariamente – entre todos os membros do clã.

Até então, naqueles primórdios, não existia a noção de propriedade do solo e todo alimento conseguido destinava-se ao consumo imediato.

Há aproximadamente nove mil anos atrás, com o surgimento da agricultura, a Humanidade experimentou modificações viscerais: Apareceram as primeiras riquezas isoladas, derivadas dos excedentes da produção; surgiu o escambo e... as dificuldades. Vale ressaltar que a gênese de tais desigualdades não está arraigada no progresso gerado pelas riquezas, mas sim, no egoísmo, esse verme roedor e voraz tão nocivo às relações interpessoais. Enquanto alguns, também como hoje, detinham incalculáveis fortunas, monopólios, e celeiros abarrotados, outros morriam de fome. Vemos, assim, que os desníveis sociais são de remotíssimas datas. Pobreza e riqueza coexistem desde o início das grandes e ancestrais civilizações.

Pelos registros históricos, em todas as épocas da Humanidade, hedonista por excelência, existiram e ainda existirão por largos séculos tais defasagens, sempre tão estudadas, mas jamais realmente solucionadas de forma satisfatória, em que pesem os ingentes esforços de inúmeros cientistas e especialistas da delicada área social.

Chegamos, assim aos séculos XVIII e XIX, que se notabilizaram pela explosão industrial iniciada na Inglaterra e logo se estendendo pelas terras francesas.

Com a utilização das máquinas e do capital, multiplicaram-se, ainda mais, a produção e a riqueza, mas paradoxalmente, aumentaram as desigualdades em meio a quadros tristes de miséria e exploração cujos ecos ressoam até hoje, conforme podemos comprovar pelas notícias veiculadas pela mídia: Êxodo rural, salários baixíssimos, impiedosas jornadas de trabalho, a utilização de mão de obra infantil, roubando das crianças o direito de vivenciar, em suas tenras faixas etárias, os folguedos próprios, adequados e justos do tempo juvenil, que morriam em decorrência dos excessos a que eram submetidas.

Debalde levantaram-se as vozes de pensadores materialistas, apregoando soluções radicais e violentas para tão aflitivas situações, propondo a supressão da propriedade privada dos meios de produção e a redistribuição dos recursos, de modo a suprimir tais injustiças. Dessas fracassadas tentativas pioneiras nos dá notícia o manifesto comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels em 1848.

Com todo respeito a tais celebridades pensantes, vãos foram seus conceitos, uma vez que a essência deles equivaleria a tentar obter comportamento fraterno (auxiliar o próximo em vez de explorá-lo), por meio de decretos, o que a experiência demonstra ser totalmente irrealizável.

Sem embargo, Marx, com seu materialismo histórico-dialético, estava na pista certa, mas, embora encontrando o rumo da solução, faltou, em sua equação social, o transcendente viés espiritualista. A palavra “mágica” é TRANSFORMAÇÃO, que ele realçou, no livro: “A Ideologia Alemã”,postulando no capítulo “Tese sobre Feurback”: “Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de distintos modos, cabe TRANSFORMÁ-LO”.

Tal proposta já existia há mil e oitocentos anos antes de Marx; proposta essa que resolveria todos os problemas humanos, caso fosse aceita e adotada pela Humanidade: É a proposta do Cientista Divino que esteve entre nós e conclamou: “Sede vós perfeitos, como perfeito é o Pai Celestial”. Aí sim, está a verdadeira solução: a TRANSFORMAÇÃO visceral do “modus-vivendi”, pois só a transformação moral do homem, entendendo que somente pessoas inclinadas ao bem podem constituir uma sociedade justa, poderia amenizar os efeitos deletérios da superlativa defasagem existente entre as classes sociais, onde todos teriam o mínimo essencial e indispensável para viver com dignidade e em paz.

Enquanto não chega tal transformação interior – generalizada - a fartura estará insultando a miséria e debochando das inócuas ações meramente paliativas que tão somente oferecem superficial maquiagem ao magno problema social humano, longe, portanto de erradicá-lo ou pelo menos atenuá-lo.

Efetivamente, apesar do indiscutível progresso das leis e instituições atuais com relação às de cerca de um século e meio atrás, existem, ainda, os superlativos e injustos desníveis econômicos e os quadros dolorosos de miséria física e moral. Encontramos, em abundância, espalhados por várias nações (mesmo entre as mais ricas) os guetos da agonia sem fim de onde o amor, a fraternidade e a misericórdia bateram em retirada devido à falta de sensibilidade humana.

A sociedade é a soma dos indivíduos e somente quando estes se dispuserem a aplicar as lições do Meigo Zagal Celeste, será possível viver na Terra como se a Humanidade fosse uma grande família, uma vez que Ele já promulgou a Lei mais importante deste nosso sofrido planeta: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. (João, 15:12).

Cabe aqui uma pergunta: Como conciliar o elevado sentimento de justiça e de solidariedade que ressumam dessa Lei Maior com o conflito de interesses e a luta pela Vida? Pode-se exigir do homem, em nome de princípios políticos ou de direitos econômicos, que ele renuncie ao seu egoísmo, ao seu amor próprio, à sua avidez pelos bens materiais? Ora, para colocar um basta às ambições desmedidas, à incontinência das paixões dissolventes e a todos os baixos instintos que bloqueiam o humanizado progresso social, não se faz mister apelar para a inteligência e a razão; é preciso, sobretudo, falar ao coração do homem, ensiná-lo a reconhecer o real escopo da Vida, os corolários existenciais, suas sanções, suas responsabilidades, enfim, seu engajamento humano-cristão à causa dos “filhos do calvário”...

Enquanto o homem se apresentar, no proscênio terrestre, como lobo do homem, enquanto ignorar ou mesmo apenas negligenciar o alcance dos seus atos e sua repercussão sobre o seu destino, não haverá melhoria sustentada na sorte da Humanidade. O problema social é, acima de tudo, uma questão moral. Portanto, enquanto for mau o homem será desgraçado ainda que viva sob teto de ouro.

Mas, se nos sentimos impotentes para solucionar a situação da miséria mundial, que tal procurarmos a miséria oculta à nossa volta e pelo menos mitigá-la, ainda que adstritos aos nossos estreitos limites de possibilidades?! Lembremo-nos do duplo sentido contra ou a nosso favor que pode tomar o asserto messiânico, registrado no capítulo vinte e cinco das anotações neotestamentárias de Mateus: (Mt.,25:40).

“(...) O que fizestes a um desses pequeninos, é a mim que o fizestes”.

Meditemos nisto! E, dentro do possível, façamos a nossa parte, ainda que nossa ação se assemelhe à do pássaro da lenda que tentava apagar o incêndio da floresta com as gotas d`água que jogava de seu bico, na certeza de que nossos parcos recursos e sóbrias ações serão multiplicados pelas mãos de Deus e cairão como um bálsamo refazente na chaga da miséria social.



*Este artigo foi inspirado no livro: Socialismo e Espiritismo de autoria de Léon Denis e publicado pela Casa Editora O Clarim de Matão-SP, no qual o leitor poderá obter esclarecimentos mais aprofundados sobre este tema.

Artigo publicado na RIE, dezembro de 2005.