União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

Ajuda-te, e o céu te ajudará

 

J. Garcelan

Céu sem nuvens, calor abafado, mosquitos, urubus por todo o lado, cães magricelas e esfomeados. Em derredor das pessoas que ali se encontravam toneladas de lixo oriundos de todas as partes, inclusive de hospitais, prontos-socorros e lugares que só um entendido poderia classificar. Homens, mulheres, crianças se atropelavam na busca de objetos e restos de comida para poderem sobreviver.

De longe, quem olhasse aquele espetáculo degradante, confundiria o lixo com as pessoas tal a sujeira e as vestes rotas apresentavam. Na verdade, pareceria uma tela de Salvador Dali, com sua técnica surrealista, se as pessoas olhassem de perto, ou um quadro impressionista se o espectador olhasse de mais longe onde as cores se fundem e apresentam uma imagem que tanto sucesso faz até hoje.

Na verdade a miséria naquele lugar era realmente de chocar o mais insensível ser humano. No entanto, aquela situação já perdurava há muitos anos. Os catadores ou mineradores (como eram apelidados) de lixo residiam inclusive no local, em barracos feitos com materiais colhidos no lixo. Como combustível para usarem nos fogões improvisados, lixo! E a comida? O que conseguiam lá no tal lixão ou com a venda de materiais recicláveis.

Assim os dias iam passando sem que ninguém tomasse nenhuma providência. Aliás, Mesmo que alguém da Administração Publica ou as mídias levantassem o problema, os primeiros a reclamarem eram os mais prejudicados, tal a ignorância daquela gente vinda de várias partes desses brasis. Na verdade essa ignorância não era só gerada pela falta de escolaridade, mas, talvez, pior do que isso, o medo! Medo de enfrentar a situação de uma forma diferente, ou seja, voltar para o lugar de onde veio; mas, o orgulho não permitia que ele enfrentasse seus parentes e amigos, dizendo que fracassara na grande cidade.

 

E assim pouco a pouco ia se degradando e constituído famílias que já nasciam degradadas, pois ali no tal lixão havia até crianças de três, quatro anos, catando o lixo que lhes saciaria a fome. 

Joaquim, Isabel e mais três filhos era uma dessas famílias. Joaquim viera do Norte de Minas Gerais com a esperança de arrumar um emprego, estudar e ser alguém. Em sua cidade natal, conseguira aprender a ler e escrever. Mas ao chegar à grande metrópole verificou que as coisas não eram como contavam seus amigos. Em pouco tempo seu dinheiro acabou. Viu-se despejado da pensão onde morava. Na primeira noite, dormiu em baixo de um viaduto.

 

Na segunda, não sabia o que fazer, a fome atormentava seus sentidos. Continuou e chegou a um outro viaduto onde se alojavam várias famílias de moradores de rua. Cabisbaixo, foi chegando e disse “boa tarde”. Os moradores olharam para o rapaz e responderam o cumprimento. Um dos que ali estavam, perguntou se ele queria alguma coisa. “Bem, eu estou com muita fome e aceitaria qualquer sobra que vocês poderiam me dar”. Condoído, o morador de rua cedeu-lhe um prato de feijão e um pedaço de pão. Joaquim comeu com sofreguidão, tomou da água que lhe ofereceram e agradecendo partiu em busca do nada, pois não sabia o que procurar. No caminho ainda tentou falar com dois ou três encarregados de obras para arrumar um lugar de servente, mas não teve sucesso. Seu desânimo cresceu.

 

À noite o surpreendeu no limite urbano da cidade, no início de um matagal. Embrenhou-se em uma moita e ali se preparou para dormir. Custou para pegar no sono. Os medos, a falta de iniciativa, tomaram conta de seu ser. No dia seguinte, faminto e com sede, continuou seu caminho.

Depois de duas horas mais ou menos, encontrou o tal lixão e em conseqüência os moradores que ali viviam. Ficou enojado com o que viu, mas a fome e a sede eram mais fortes do que qualquer outra coisa. Aproximou-se e foi atendido por um dos tais garimpeiros que exercia a liderança no lugar. “Ta querendo arguma coisa moço?”.

Joaquim explicou sua situação e foi atendido no seu pedido de um prato de comida e água. Depois de satisfeito, perguntou a José, pois era esse o nome do morador, se era possível ficar por ali alguns dias até que se recuperasse. “Olha moço, ficá pode, mas vai te que trabanhá pra ganhá o seu sustento”. Joaquim coçou a barba, olhou seu hospedeiro e disse “Topo!”

A idéia de Joaquim era realmente ficar ali alguns dias e seguir em frente. Seus sonhos de arrumar um emprego e estudar ainda estavam em pé. Mas... Os dias foram passando e Joaquim foi se acomodando. Construiu um pequeno barraco com tábuas, e outros objetos encontrados no lixão; até um velho colchão foi forrar o jirau construído para dormir. Meses depois, estava totalmente integrado a comunidade local. Esquecera completamente seus parentes e amigos que deixara em sua cidade natal. Começou a namorar uma moça de treze anos ali residente; três meses depois pediu aos pais da adolescente que deixassem morar junto como marido e mulher.

Os genitores da menor consentiram, pois não havia outro jeito, ninguém ali era casado no papel ou na igreja como diziam, portanto, que assim fosse.

Os anos se passaram, seis ao todo. Três crianças vieram engrossar o lar paupérrimo de Joaquim e Isabel sua mulher. Duas das crianças ajudavam a fazer a cata no lixão. Para felicidade da família, nenhuma pessoa da família havia ainda sido afetada pelo lixo contaminado, Durante o tempo que Joaquim ali morava, foram muitas as pessoas que morreram ou ficaram doentes em razão da insalubridade do lugar. Mas, fatalista como se tornara, Joaquim dizia, “seja o que Deus quiser”.

Um dia, aconteceu um fato curioso. Um dos garotos achou uma folha de um livro toda amarfanhada e suja. Seu pai, Joaquim, curioso, apanhou a tal folha e leu sem muita atenção:



CAPÍTULO XXV



BUSCAIS E ACHAREIS



Ajuda-te e o céu de ajudará. – Observai os pássaros do céu – Não vos inquieteis pela posse do ouro.



*

AJUDA-TE, E O CÉU TE AJUDARÁ



1. Pedi e se vos dará; buscai e achareis; batei à porta e se vos abrirá; porque todo aquele que pede recebe, o que procura acha, e se abrirá àquele que bater à porta.



Também qual é o homem dentre vós que dá uma pedra ao filho quando lhe pede pão? Ou se lhe pede um peixe lhe dará uma serpente? Se, pois, sendo maus como sois, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, com quanto mais forte razão vosso Pai, que está nos céus, dará os verdadeiros bens àqueles que lhos pedem.

(São Mateus, cap. VII, v. de 7 a 11).



2. Sob o ponto de vista terrestre, a máxima: Buscai e Achareis, é análoga a esta: AJUDA-TE, E O CÉU TE AJUDARÁ. É o princípio da lei do trabalho, e, por conseguinte, da lei do progresso, porque o progresso é filho do trabalho, e o trabalho coloca em ação as forças da inteligência.



Na infância da Humanidade, o homem não aplica sua inteligência senão à procura de sua alimentação, dos meios de se preservar das intempéries e de se defender dos seus inimigos; mas Deus lhe deu, a mais do que ao animal, o desejo incessante do melhor, que o impele à procura dos meios de melhorar sua posição, que o conduz às descobertas, às invenções, ao aperfeiçoamento da ciência, porque é a ciência que lhe proporciona o que lhe falta. Através das suas pesquisas, sua inteligência aumenta, sua moral se depura; às necessidades do corpo sucedem as necessidades do. Joaquim que começara a ler àquela página apenas por curiosidade, terminara a leitura intrigado e desejoso de saber como terminaria o escrito ali naquela página tão interessante que falava de Deus. Virou a página do outro lado e encontrou apenas o seguinte: “rá as vantagens do reino dos céus, ao passo que aqueles que tiverem perdido tudo neste mundo, mesmo a vida, para triunfo da verdade, receberão na vida futura o prêmio da sua coragem, da sua perseverança e da sua abnegação; mas àqueles que sacrificam os bens celestes aos gozos terrestres, Deus disse: Já haveis recebido vossa recompensa”. Joaquim não sabia naquele momento que aquele trecho lido no anverso da página era o final do Capítulo XXIV, item 17 – CARREGAR A CRUZ. QUEM QUISER SALVAR A VIDA, PERDÊ-LA-Á.

Deus, uma palavra que há muito Joaquim não ouvia. Quando morava no interior de Minas Gerais e freqüentava a escola primária, era assíduo ouvinte das aulas de religião administradas pela professora e o pároco local. De vez em quando ia à missa na Matriz. Isso quando seu pai permitia, pois o trabalho na roça estava em primeiro lugar. Assim com as palavras que havia lido, soando em seus ouvidos como uma voz interior deixou o que estava fazendo e se dirigiu para um recanto longe daquele lugar. Sentou-se à sombra de uma árvore e tornou a ler a página do livro encontrada. Ruminava cada palavra para entender o sentido exato daquilo tudo.

Depois de muito pensar, chegou à conclusão que o texto tinha muito a ver com a sua vida, mas não conseguia entender como assimilar tudo aquilo e mudar o rumo de sua existência e da de sua família.



O EVANGELHO



No dia seguinte, Joaquim carregou toda a sucata que havia juntado no carrinho com rodas de pneu que ele mesmo havia feito e se dirigiu ao centro do bairro. A distância era longa e de vez em quando era obrigado parar para um descanso. Aproveitava então para reler a página do livro que havia encontrado. A cada leitura, mais interessado ficava o que dizia o texto. Tinha até tentado orar, mas não se lembrava mais como fazer.

Chegou assim até o depósito de ferro-velho. O proprietário Seu João era tido como uma pessoa bondosa, prestativa e que pagava o preço justo pelos materiais que ali levavam. Criterioso, só comprava objetos velhos e depois da certeza da procedência dos mesmos. Tratava a todos com distinção e apreço. Ao fazer a avaliação do conteúdo que Joaquim havia levado, notou que o catador de lixo estava diferente e perguntou; “Como é que é Joaquim, tudo bem?” Joaquim olhou-o por alguns instantes, tentando avaliar até que ponto poderia confiar seus problemas àquela pessoa. Depois de alguns instantes, e de raciocinar sobre os seis anos de relacionamento com o Seu João, decidiu contar-lhe o que estava se passando. “Está tudo bem, mas quero lhe mostrar uma coisa” e, incontinente tirou o papel da algibeira e o mostrou ao negociante. Seu João pegou à página do livro olhou-a e com os olhos marejados de lágrimas perguntou “onde você achou isto?”; “no lixão”, respondeu Francisco. “E o que você achou do que aí está escrito?”. “Achei maravilhoso e desde então me sinto em estado de graça e cheio de dúvidas e perguntas que não consigo responder para mim mesmo”. Seu João pegou no braço de Joaquim e o levou para o pequeno escritório do depósito. Pediu para sentar-se, ofereceu-lhe um café e se dirigiu a uma pequena estante pregada na parede onde se via alguns livros. Pegou um e ofereceu-o a Joaquim que imediatamente leu o que estava escrito na capa “O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO” e logo mais abaixo Allan Kardec. Havia também a imagem do escritor do livro como explicou seu João.

Joaquim olhou o livro e retornou ao passado quando ainda era uma criança. Lembrou-se de pessoas dizendo-lhe que o Espiritismo era coisa do demônio e coisas parecidas. Mas como o Espiritismo poderia ser coisa do demônio se a única página que lera falava de Deus? Seu João ajudou-o a encontrar o Capítulo XXV e pediu para que ele o lesse com atenção. Joaquim começou a ler desde o início o capítulo em questão e prosseguiu... ”espírito; após o alimento material, é preciso o alimento espiritual, e é assim que o homem passa da selvageria à civilização.....................................................................................................................

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Joaquim leu todo o Capítulo, lentamente sem nenhuma pressa; dos olhos marejavam-se as lágrimas; seu corpo sentiu um calafrio agradável como se alguém estivesse espargindo alguma substância para refazer suas forças. Olhou para Seu João com olhar súplice e... Antes que formulasse o pedido que tinha em mente, o comerciante ofereceu-lhe o livro de presente recomendando que o lesse com muita atenção.

Francisco retornou ao lar e durante 20 dias dedicou a maior parte de seu tempo a ler o Evangelho. A cada parágrafo, cada capítulo, sua mente se iluminava. Releu alguns dos Capítulos, conversou com sua mulher e filhos sobre o assunto. Aprendera nesses vinte dias a orar. Aprendeu que bastava conversar com Jesus com suas próprias palavras para se sentir bem e a voltar ter esperanças e sonhar com o futuro.

Depois de ler o livro, Joaquim voltou ao depósito de ferro-velho para negociar o que havia amealhado e conversar com Seu João. Estava ansioso por chegar e não descansou um instante sequer durante todo o percurso. Ao adentrar o depósito, procurou logo o proprietário e ao avistá-lo, não se conteve; correu para ele e o abraçou chorando e dizendo muito obrigado. Seu João emocionado, novamente o introduzio no escritório e foi até a estante e dali tirou mais quatro livros; mostrou-os a Joaquim que leu o título de cada um; “O LIVRO DOS ESPÍRITOS, O LIVRO DOS MÉDIUNS, O CÉU E O INFERNO e finalmente A GÊNESE”. Joaquim olhou cada um daqueles volumes e com um olhar de interrogação perguntou: “todos esses livros são sobre o Espiritismo”? “Sim”, respondeu João. “Esses livros completam o Pentateuco, ou seja, os cinco livros da Codificação Espírita cujo responsável e instrumento do Espírito de Verdade foi Allan Kardec”. Por mais de duas horas Seu João discorreu sobre a vida de Kardec e o Espiritismo. Depois da exposição, Seu João presenteou Joaquim com àquelas obras e ainda o convidou para freqüentar o Centro Espírita do bairro. Disse que o dia de palestras e passes eram todos os sábados às quatro horas da tarde.

No dia aprazado lá estava Joaquim e sua família. Viu Seu João chegar e dirigir-se a ele; cumprimentou-o e foi logo dizendo alegremente que estava lendo o Livro dos Espíritos e folhando uma ou outra página dos demais. Disse ainda que estava reunindo várias pessoas da comunidade e procurava transmitir aquilo que tinha aprendido. Muitos desses desajustados estavam interessados e não cansavam de fazer perguntas a Joaquim. João então prometeu que alguém do Centro iria ajudá-lo nesse mister.

Joaquim assistiu à palestra cujo tema foi o item 4 do Capítulo V do Evangelho – CAUSAS ATUAIS DAS AFLIÇÕES -. Ficou “nas nuvens” como se costuma dizer e não cabia em si de contente. Pois estava verificando que sua vida estava dando uma reviravolta total. Depois do passe, sentiu-se ainda melhor. No fim dos trabalhos, procurou João e buscou mais informações sobre o Centro Espírita. Queria saber o que fazer para freqüentar os cursos ali administrados: Educação Mediúnica, Estudo do Livro dos Espíritos, etc. O comerciante lhe deu todas as informações e o aconselhou a escolher um deles depois de consultar o Presidente do Centro Espírita, se bem que seu livre-arbítrio era o que prevaleceria.

Dois meses se passaram e Joaquim comparecia juntamente com sua família todos os sábados e, aos domingos ia aos Estudos do Livro dos Espíritos pela manhã. Era-lhe difícil sair à noite devido à distância do lugar e o perigo que isso trazia.

Mas não perdia tempo. Aproveitava-o para pregar aos interessados o que aprendia no dia a dia. Seu grupo já tinha um número razoável de pessoas e contava ainda com a ajuda do Centro Espírita uma vez por semana que pra lá mandava um seareiro.

Um dia, quando se encontrava no depósito de ferro-velho, Seu João, chamou-o ao escritório e lhe fez uma proposta; “Joaquim, Como você sabe o terreno do ferro-velho é grande e de minha propriedade; tenho lá nos fundos uma pequena casa com quarto, sala e cozinha; quem morava lá era um antigo empregado que se aposentou e voltou para sua terra. A função dele, além de me ajudar nas tarefas aqui no comércio era a de manter guarda nas instalações. Pois bem, ofereço o emprego a você e a casinha também para que você possa morar decentemente com sua família, mandar seus filhos à escola e começar assim uma nova vida”. Imediatamente, veio à mente de Joaquim o CAPÍTULO XXV do Evangelho e emocionado balbuciou o título do primeiro item “AJUDA-TE, E O CÉU TE AJUDARÁ”.



F I M



Conto

Autor:- J.Garcelan – e-mail – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

12 de outubro de 2005.

Bibliografia:- O Evangelho Segundo o Espiritismo

Tradução de Salvador Gentile - Publicação IDE; 40ª. Edição-outubro/1984.