União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

Pensando sobre unificação

 

 

 

Vinícius Lousada 

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“(...) aqueles que estão imbuídos dos verdadeiros princípios desta Doutrina, vêem irmãos em todos os espíritas(...).”(1)





Todos aqueles que mourejamos no movimento espírita necessitamos pensar mais detidamente quanto ao modo pelo qual o processo de unificação vem sendo compreendido em nosso cotidiano, a fim de evitarmos possíveis equívocos que desnaturem a proposta sublime de união fraterna da família espírita inspirada pelos Espíritos Nobres.

O fenômeno de distorção do que seja a unificação pode ser verificado quando, na ausência de uma conduta reflexiva, numa prática sem a clareza mesmo de seu real sentido, passa-se a restringi-la ao cumprimento de protocolos sociais, às formalidades humanas ou a confundi-la com homogeneização de tarefas, instalando-se em nossas casas espíritas uma lógica quase fabril.

Allan Kardec, ao propor o Projeto 1868(2), que se constitui num plano de organização do movimento espírita, objetivando a popularização mais estruturada da doutrina e o entrelaçamento fraterno das sociedades espíritas – com relações pautadas na caridade, na abnegação e na humildade –, aponta a falta de unidade doutrinária como sendo um dos maioresobstáculos ao avanço do Espiritismo.

A incompreensão dos postulados espíritas leva inquestionavelmente à divisão, às lutas pelo poder, às rivalidades absurdas entre aqueles que se crêem donos da verdade, querendo impor-se à maioria com base em revelações particulares, incapazes de serem sustentadas perante a lógica do bom senso ou ao Controle universal do ensino dos Espíritos, critério este que reza o seguinte: “Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns, estranhos uns aos outros e em vários lugares.”(3)

Então, a primeira premissa para a união dos espíritas é o entendimento do Espiritismo em sua complexidade, de outra forma, surgirão as dissidências por causa das guerras de palavras, originadas nas leituras personalistas destituídas do intuito honesto de se estabelecer uma aprendizagem sobre o seu conteúdo. Aliás, o que demonstra a sinceridade da fé raciocinada do espírita é o desejo constante de colher na Doutrina Espírita os meios de reformar a si mesmo e a sua dedicação aos estudos doutrinários.

Outro ponto capital para o processo de unificação, sem o qual todo esforço intelectual perde sentido, é o elo de fraternidade recíproca que deve nos unir. Este tem que se configurar num sentimento de lídima caridade cristã a ser nutrido reciprocamente, mesmo que tenhamos diferenças, sejam elas conceituais ou nos modos de agir.

Ao buscarmos a tradição do movimento cristão, encontraremos um roteiro moral para a nossa convivência na advertência de Jesus ao colégio apostólico: Nisto conhecerão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros.”(4)

Na referencia às atividades da Casa do Caminho, o livro dos atos dos apóstolos registra que a “multidão dos que creram eram um o coração e a alma(5), o que significa que os primeiros cristãos portavam uma identidade de sentimentos e ação: a propagação da Boa Nova e o soerguimento dos pobres. Embora nem todos devessem pensar da mesma forma porque eram individualidades, o seu amor em Cristo os conduzia, homens e mulheres simples, a unirem esforços pela implantação do Reino.

Caso nos reportemos ao Cristianismo do século III, vamos reconhecer o estabelecimento de um laço moral inquebrantável entre os cristãos que eram assolados por perseguições insanas e arrastados até os circos romanos pela incúria do poder dominante para que fossem martirizados. Conforme a narrativa do Espírito Emmanuel(6), na comunidade cristã de Lião, por exemplo, os filhos dos mártires eram acolhidos pelos companheiros de ideal como membros de uma mesma família.

Não será esse espírito de união dos tempos apostólicos no qual devemos nos inspirar para unificar hoje, o de sermos irmãos voltados ao amor mútuo, abertos ao diálogo, à alteridade e ao esforço cooperativo na construção da Era de Regeneração?

Esse ideal também foi revivido entre os irmãos menores que acompanhavam Francisco de Assis na aventura de fazer acontecer o inédito viável (a utopia) de reerguer a Igreja do Cristo. Além de laborarem para a sobrevivência digna, num regime de austero casamento com a pobreza, os tutelados do Pobrezinho entregavam-se ao socorro dos deserdados do mundo e conviviam alegremente numa irmandade pacífica embalada pelos cânticos que entoavam em louvor à vida.

Já, Allan Kardec previa a necessidade da construção de uma rede de relações entre as sociedades espíritas e de seus membros quando sugeria: “Esses grupos, correspondendo-se entre si, visitando-se, permutando suas observações, podem, desde o presente, formarem o núcleo da grande família espírita que congregará, um dia, todas as opiniões, e unirá os homens num mesmo sentimento de fraternidade, selado pela caridade cristã”(7). Mas, no mesmo item, não deixou de advertir antes que esse “(...)laço não pode existir senão entre aqueles que lhe vêem o objetivo moral, o compreendem e o aplicam a si mesmos.”

Esta recomendação do Codificador baliza-nos para concebermos a unificação como um processo de união real dos espíritas e indispensável ao fortalecimento de nosso movimento doutrinário, com vistas à execução de ações coletivas em prol da divulgação acertada do Espiritismo e do melhoramento do mundo em que vivemos.

Então, conscientizemo-nos de que a casa espírita sendo o reflexo da natureza de seus indivíduos e o movimento espírita – num âmbito global –, o efeito de suas “instituições de base”, nosso movimento religioso somente apresentará a beleza da Religião dos Espíritos quando nos fizermos criaturas mais espiritualizadas.

Assim, é fundamental que estudemos muito o Espiritismo e nos unamos em nossas atividades – sem imposições ou sectarismos –, trocando idéias, ouvindo-nos e abraçando-nos como irmãos dispostos a estreitar os vínculos de amizade verdadeira, alimentando nossos sonhos de transformarmos nossa Casa Planetária e a nós mesmos mediante as felizes realizações da caridade.

(1) O livro dos Médiuns, 2a. parte, Cap. XXXI, item XXII.

(2) Obras Póstumas.

(3) O Evangelho segundo o Espiritismo, Introdução, item II.

(4) Jo 13:35.

(5) Atos 4:32.

(6) Xavier, Francisco C. Ave Cristo. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1997, 1a. parte, cap. III.

(7) O Livro dos Médiuns, item 334.