União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

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Se eu quiser falar com Deus, por Carlos A. Abranches

 

 

 

Gilberto GIL 

Se eu quiser falar com Deus

Carlos Augusto Abranches

O compositor e cantor Gilberto Gil escreveu a música “Se eu quizer falar com Deus” e deixou uma mensagem muito interessante, diante da reflexão dos que não imaginavam como se portar diante do diálogo com o Criador da Vida. Queremos nesta página, atentar para alguns trechos, numa possível releitura à luz da Doutrina Espírita, para que possamos, caso necessário, compreender as frases de maneira diferente.

A primeira estrofe diz:

“Se eu quizer falar com Deus

tenho que ficar a sós

tenho que apagar a luz

tenho que calar a voz

tenho que encontrar a paz

tenho que folgar os nós

dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios

tenho que esquecer a data

tenho que perder a conta

tenho que ter as mãos vazias

ter a alma e o corpo nus”.

Para estar com Deus, realmente a solidão é um elemento íntimo favorável, mas não a solidão que fere, e sim a que me aproxima de minhas necessidades de forma equilibrada e amiga. A luz que devo apagar é a das questões exteriores, para que brilhe a chama da quietude íntima, única forma de calar a voz com grandeza e afrouxar os nós do que teima em me reter no atraso de mim mesmo. Eis o começo do esvaziar-se, para se ter a alma e o corpo nus.

A segundo estrofe diz:

“Se eu quiser falar com Deus

tenho que aceitar a dor

tenho que comer o pão

que o diabo amassou

tenho que viver um cão

tenho que lamber o chão

dos sapatos, dos castelos

suntuosos do meu sonho

tenho que me ver tristonho

tenho que me achar medonho

E apesar de um mal tamanho

alegrar meu coração”.

Para se estar com Deus a aceitação da dor é fundamental, más não a aceitação passiva, alienada, e sim a que gera a libertação de quem sofre, do próprio sofrimento, pela conquista da sabedoria em enfrentá-lo.

Por outro lado, a Lei do Amor garante que ninguém come o pão que o outro diabo amassou, mas só aqueles que nossas próprias criações inferiores fermentaram.

Devo, igualmente, ser fiel a mim mesmo, como o cão é ao seu dono, para não me perder nas ilusões dos sonhos vazios e de maneira nenhuma me ver tristonho, e sim feliz, porque Deus é Amor, e o aroma do amor é a felicidade.

O último trecho canta:

“Se eu quiser falar com Deus

tenho que me aventurar,

tenho que subir ao céus,

sem cordas para segurar

tenho que dizer adeus

das as costas, caminhar

decidido pela estrada.

que ao findar vai dar em nada, nada, nada do que eu pensava encontrar”.

Finalmente, se eu quiser estar com Deus, devo me aventurar, sim, mas somente se for através da sublime viagem de tomar consciência de mim mesmo. Certamente, subirei aos céus pelas cordas invisíveis da fé raciocinada, que me harmonizam razão e afeto. Preciso, ainda, dizer adeus para as ilusões do homem velho e caminhar decidido pela estrada que ao findar vai dar em nada do que eu, com minha visão limitada, pensava encontrar.

Essa estrada, o rumo seguro do progresso sem fim, vai dar no que ainda não conheço, a paz integral, aonde vamos morar com Deus, eu e você, que também quis vir falar com Ele, e encontrou o caminho certo...

Reformador - FEB/maio de 1995 nº 1994
O Espírita - Outubro de 2000