União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

Simplicidade e Família

Há sempre muitas lições a se tirar de cada experiência. A leitura e o estudo metódico, contínuo de algumas obras espíritas que nos chegam às mãos, mesmo os romances, tem-nos proporcionado um grande aprendizado, além do prazer natural de se ler bons livros. 

A releitura do romance Renúncia, de Emmanuel, nos moldes propostos, fez-nos encontrar ensinamentos preciosos em suas linhas. O que se extraí das leituras metódicas dificilmente torna-se possível com uma leitura de fruição apenas. Nos dois meses e doze dias a que se nos dedicamos ao estudo desta obra descobrimos dois temas inspiradores para nossos artigos: família e evangelho no lar. É claro que esta seleção temática, limitada a estes dois temas, não encerra todas as lições contidas no livro. Existirão, com certeza, outros tantos temas que não nos interessou de momento. Mas que, caso nos interesse no futuro, saberemos onde encontrar. Feito este preâmbulo, vamos ao tema. 

A necessidade da vida simples em família 

Os comentários de Jaques, um dos personagens de Renúncia, dirigidos ao seu sobrinho Cirilo, será o fio condutor deste artigo. 

Cirilo desejando desposar Madalena e não tendo a seu ver os recursos financeiros necessários para um tal empreendimento, consulta o seu tio Jaques, que dá orientações, que se não serviu plenamente ao personagem, na trama da sua história à época, servirá certamente, para as nossas reflexões. 

Em síntese, tio Jaques disse que: 

- Os melhores momentos de sua vida conjugal aconteceram durante o período marcado pelas lutas contra todos os obstáculos. 

- Sem o apoio da família, que não apoiaram plenamente o seu casamento “as lutas intensas de cada dia, as horas de convivência doméstica tornavam-se mais preciosas”. 

- O “júbilo perfeito” começou a fugir-lhes das mãos, ao assumirem a parte da herança que coube à sua esposa, o que os motivou à mudança de país. Nas suas palavras: “Na Irlanda possuíamos um ninho; na França encontramos uma casa. No ninho, vivíamos de amor e paz; na casa, a existência obedeceu às imposições dos cuidados numerosos pelas muitas convenções sociais”. 

- O personagem faria a distinção entre casa e lar, acrescentando que, longe de desconsiderar a importância da organização física, as casas devem ser antes de tudo “ninhos simples e acolhedores, onde cada membro da família experimente a tranqüilidade devida”. 



- Felícia, esposa de Jaques, ao contato com o novo ambiente e suas facilidades materiais “não soube resistir ao peso do bem-estar”. As posses os forçaram “a numerosos esforços de manutenção e defesa”, isto é, a pequena fortuna exigiu-lhe um tempo precioso, que anteriormente era dedicado a interesses mais nobres. 

- Suas filhas, antes habituadas à simplicidade “cresceram entre exigências de toda sorte”. 

- Por acreditar “mais na sociedade humana que nas leis simples da vida” sua esposa de certa forma induziu as filhas ao desequilíbrio afetivo-moral, o que as distanciou do “antigo ideal”. 

- E completando as lições ao sobrinho, arrematou dizendo-lhe que não se preocupasse caso não pudesse ter um lar servido por empregados domésticos, com estas sábias palavras: “Uma casa sem lacaios é um refúgio espiritual, nestes tempos de devassidão”. 

É incontestável que a experiência relatada por Jaques ao seu sobrinho faz parte de umas tantas histórias nestes dias que correm. Conhece-se muitos lares conturbados ou desfeitos, vítimas das tantas complicações que o peso das obrigações sociais se nos impõe. 

Também não é possível contestar que não poucas vezes nos submetemos às exigências de um certo padrão social de vida. Ao invés de determinarmos o nosso padrão de vida, sucumbimos aos modelos impostos pelo grupo social do qual fazemos parte. 

Troca-se assim, não raro, a tranqüilidade de uma vida em família mais simples, pelas exigências que um novo modo de vida impõe. Guiamo-nos, a partir daí, pelo mais caro, pelo melhor, pelo que está na moda, enfim, por tudo aquilo que o grupo aceita como o mínimo razoável. Sem que percebamos, o nosso livre-arbítrio deixa de existir. Afinal de contas não sou eu quem decide mais a minha vida, mas com certeza os outros. 

Muitas vezes o canto da sereia nos seduz a vaidade: morar neste ou naquele bairro (ou condomínio), dar uma maior proteção aos filhos, proporcionar-lhes melhores amizades, fornecer-lhes melhores escolas, etc. 

É tempo ainda de refletirmos se estamos transformando a nossa casa em um verdadeiro lar ou, se ao contrário, começamos a transformar o lar em apenas uma bela e vazia casa. 

Para finalizar fiquemos com as sábias palavras encontradas na resposta à questão 926 de O Livro dos Espíritos: “Aquele que sabe limitar seus desejos e vê sem cobiças aquilo que está além de suas possibilidades poupa-se a muitos aborrecimentos nesta vida. Mais rico é aquele que menos necessidades tem”.

Título : Simplicidade e Família 
Autor: Abel Sidney (colaborador) 
Data: 01/11/2001 
Fonte: O Mensageiro