União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

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Uma questão de ponto de vista

“Quando nos projetamos para a posteridade, devemos lembrar que a virtude não é hereditária”. 

Esse pensamento é de Thomas Paine, nascido na Inglaterra em 1737 e desencarnado nos Estados Unidos em 1809. Político britânico, o jornalista era herege (por ir contra os dogmas da Igreja) e um dos signatários e defensores da Independência americana. Paine tinha uma visão muito particular do que seria democracia e alguns historiadores afirmam que seria ele um dos precursores da Doutrina Anárquica. Escreveu “Os Direitos do Homem”. 

Bem, feito um retrato bastante superficial dessa figura histórica anglo-americana, vamos nos ater ao pensamento de sua autoria. 

O modo de pensar de Thomas Paine e de outros como ele, não só naquela época, mas em todos os períodos da Humanidade, inclusive no presente, dão razão ao político inglês quando diz que a virtude não é hereditária. Mas entende-se que ele se refere à vida material. O que diria ele se tivesse conhecimento da vida após a morte, e da Reencarnação? Provavelmente não teria proferido tal pensamento, pois saberia que somos herdeiros de nós mesmos e que, portanto, tudo o que levamos daqui ao desencarnarmos, no campo moral herdaremos na próxima existência, sejam virtudes ou desvirtudes, esta última só será saneada após dolorosos resgates. 

No campo material, que tem mais ou menos 70 anos de idade (e tiver sido bom observador e informado) pode acompanhar como grandes fortunas se fizeram e como se diluíram através dos anos. Famílias famosas, que receberam até títulos nobiliárquicos em países estrangeiros, hoje estão esquecidas por verem suas fortunas divididas cada vez mais por inúmeros herdeiros e assim por diante. Não podemos, evidentemente, falar sobre a herança moral, pois cada um irá responder por isso, pois se trata de um assunto consciencial. Isso demonstra que as fortunas são emprestadas pelo Pai aos seres encarnados para passarem por essa difícil prova. 

No Capítulo XVI do Evangelho Segundo o Espiritismo, item 11 – Emprego da Fortuna – diz: Não podeis servir a Deus e a Mamon; retende bem isto, vós a quem o amor do 

ouro domina, vós que venderíeis vossa alma para possuir tesouros, porque eles podem vos elevar acima dos outros homens e vos dar as alegrias das paixões; não, não podeis servir a Deus e a Mamon! Se, pois, sentis vossa alma dominada pela cobiça da carne, apressai-vos em sacudir o jugo que vos oprime, porque Deus, justo e severo, vos dirá: Que fizeste, dispenseiro infiel, dos bens que te confiei? Esse poderoso móvel das boas obras, não fizestes servir senão à tua satisfação pessoal. A lição prossegue... Vamos agora transcrever o item 15 do mesmo Capítulo: O princípio segundo o qual o homem não é se não o depositário da fortuna que Deus lhe permite gozar durante a vida, tira-lhe o direito de transmiti-la aos seus descendentes? 

O homem pode perfeitamente transmitir, depois de sua morte, do que gozou durante a vida, porque o efeito desse direito está sempre subordinado à vontade de Deus que pode, quando quiser, impedir seus descendentes de gozá-lo; é assim que se vê desmoronarem fortunas que pareciam solidamente estabelecidas. A vontade do homem em manter sua fortuna na sua descendência é, pois, impotente, o que não lhe tira o direito de transmitir o empréstimo que recebeu, uma vez que Deus o retirará quando julgar conveniente. (São Luís, Paris, 1860). 

Thomas Paine, no pensamento acima, provavelmente, pensou no caráter, no valor moral, etc. que não se pode deixar em testamento. Não raro, os herdeiros dilapidam com facilidade os bens materiais deixados pelos desencarnados e tomam caminhos diferentes ao daquele que lhes deixaram a fortuna. Um ou outro descendente se lembrará das virtudes morais do “falecido” ou que julgam serem virtudes e, em razão disso, serão erigidas estátuas ou grandes retratos, nomes de ruas ou praças, etc., que lembrarão para a posteridade o “benemérito” cidadão. 

Mas é ao desencarnar e tomar conhecimento da realidade que o Espírito, até então encarcerado, descobrirá, mais cedo ou mais tarde, dependendo de seu estado evolutivo, que ele é o herdeiro de suas ações, sejam elas más ou boas. 

Como seria maravilhoso que o homem seguisse os ensinamentos de Jesus e seus exemplos, como por exemplo, nesta passagem: “E Ele disse: - Pedro recebe aqueles em meu nome, pois tenho que me ausentar; - sim, Rabi! E comparecendo à casa do caminho, eis que Pedro se achega daqueles que procuravam por Jesus. E vê ali a espera da Pureza do Mestre, vários mendigos, prostitutas, ladrões, cobradores de impostos e todo o tipo de gente de Israel, e tendo Pedro visto isto, diz: - Fora daqui bando de infiéis! Que quereis vós com o Mestre? Vós não sois dignos Dele! 

E retornando Jesus, perguntou a Pedro. – Pedro onde estão aqueles que me procuram? E Pedro responde: - Rabi, era um bando de infiéis. Adúlteros, ladrões e prostitutas. Não eram dignos do Senhor! Mandei-os embora! 

E Ele responde. 

- Pedro, Pedro, eu não vim para os sãos, mas sim para os doentes, corre, vai à busca deles e os retorna para mim, pois é para isso que o Filho de Deus veio a este mundo! 

Assim, o que entenderia Pedro como virtude em sua época? E Thomas Paine nos séculos XVIII e XIX, qual seria a definição dessa palavra no entender desse político histórico. Nos dia de hoje, não ouso nem entrar nessa questão para não ferir suscetibilidades ao mencionar nomes, pois não seria digno de ser espírita se assim o fizesse. Mas os fatos ai estão na mídia, escrita, na TV, no rádio, etc., basta ver, olhar e escutar e o leitor tirará suas próprias conclusões. E para encerrar, um pequeno texto de um autor desconhecido: “Somos semeadores conscientes no campo da vida, pois diariamente espalhamos muitas sementes ao nosso redor. Saibamos escolher sempre as melhores, para que, ao recebermos a dádiva da colheita farta, tenhamos apenas motivos para agradecer”. 

J. Garcelan 
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Matéria publicada na Revista Internacional de Espiritismo (RIE) novembro/2007, pag. 530.