União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

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Homeopatia

É só fazer o teste: ouça dez ou quinze pessoas, selecionadas ao acaso, sobre o que elas pensam da homeopatia. Boa parte das respostas provavelmente começará com "eu acredito" ou "eu não acredito". Esse é o terreno escorregadio, o da crença, no qual se equilibra a homeopatia nos últimos dois séculos - e não só entre leigos. 

O aval de instituições respeitadas deveria diminuir o tom das críticas - mas não é isso que acontece. Muitos médicos, farmacêuticos e biomédicos categorizam a homeopatia como uma inverdade que, de tanto ser repetida, acabou se confundindo com uma verdade. Eles refutam ponto por ponto os fundamentos estabelecidos pelo alemão Samuel Hahnemann, o criador da homeopatia, no fim do século XVIII. Um deles é a idéia de que se deve tratar o paciente, e não o mal. Os homeopatas levam em conta os mais ínfimos aspectos de cada indivíduo, como o nível de stress, a que horas sente fome e se tem pesadelos - detalhes que costumam estender uma consulta homeopática para além de uma hora de duração. Ao fim dela, o paciente ganha uma receita personalizada. É claro que os alopatas também levantam o histórico familiar e pessoal do paciente. A diferença é que, numa consulta convencional, não é hábito perguntar sobre pratos prediletos ou sobre o humor ao acordar. O objetivo é receitar um tratamento que ataque diretamente a doença: para a alopatia, todo organismo humano é semelhante e, portanto, deve responder da mesma maneira a determinada droga. Outro ponto de discordância é o tipo de medicamento: enquanto a homeopatia busca a cura pelo semelhante, a alopatia faz uso de remédios que combatam o mal de frente - é o princípio da cura pelo contrário. 

O tema mais polêmico, contudo, é o conceito de concentração. A alopatia considera que uma droga é tão mais eficaz quanto maior for sua dosagem. Esse é o pensamento que determina, por exemplo, que se tomem duas aspirinas em vez de uma para combater uma dor de cabeça muito forte. Na homeopatia, prega-se o contrário. O medicamento homeopático contém substâncias retiradas de plantas, minerais ou animais que são diluídas à exaustão e sacudidas centenas de vezes. Ao fim dessa operação, chamada dinamização, o frasco com a solução sai do laboratório sem nenhuma molécula da substância originalmente dissolvida ali (veja quadro). Eis uma das idéias de Hahnemann que sobrevivem até hoje: quanto mais diluída e dinamizada uma solução, mais potente ela ficaria. Pelos procedimentos bioquímicos universalmente aceitos, porém, ela não é mais que isso - uma idéia. Na tradição científica, um medicamento é considerado eficaz se passar com sucesso por algumas etapas. Avalia-se a eficácia da droga em pacientes comparando-a com um placebo - um remédio falso, feito de substâncias inócuas, como farinha e água. É o que se chama ensaio clínico. Também é importante desvendar o mecanismo de ação do medicamento sobre as células e moléculas. O desafio que os alopatas propõem à homeopatia é que ela comprove seus efeitos conforme essa receita tradicional. Aí começam a surgir as dificuldades. Como os remédios homeopáticos geralmente não contêm nem traço de seu princípio ativo original, aos olhos da bioquímica eles não passam de água. Os homeopatas dizem que faltam à ciência instrumentos para realizar a medição que mostraria a existência, nos seus remédios, do princípio ativo num nível infinitesimal. Os alopatas, é claro, refutam essa idéia com veemência. "Se a homeopatia tem de responder a perguntas diferentes das que são propostas a todos os outros campos do conhecimento científico, então temos de mudar a ciência. E, se temos de mudar a ciência, então a homeopatia não é científica, ao menos por ora", afirma o médico Paulo Bento Bandarra, de Porto Alegre, um dos principais opositores à homeopatia no Brasil, integrante do Movimento Medicina Responsável. 

Estudos demonstram que a confiança no médico e nos remédios, bem como a vontade do paciente de se curar, aumenta os resultados positivos em vários tipos de tratamento. Num ensaio clínico publicado em 1987 na revista da Associação Médica Brasileira, uma equipe mista de homeopatas e alopatas comparou medicamentos homeopáticos com placebos em sessenta pessoas vítimas de insônia. Resultado: os dois grupos - o que recebeu o remédio de verdade e o que tomou bolinhas de açúcar - apresentaram o mesmo resultado. "Para os adeptos da medicina convencional, essa é uma prova de que a homeopatia não funciona", diz o psicofarmacólogo Elisaldo Carlini, da Unifesp, que conduziu a experiência. "Mas, se pensarmos que a homeopatia é, mais do que o medicamento, todo um procedimento que começa com uma atenção especial ao paciente, temos um resultado positivo." Mesmo entre os alopatas, há quem concorde: "Talvez chegue a hora de a medicina superar a visão dualista, que divide o homem entre corpo e alma, e começar a levar em conta aspectos imateriais que influem na saúde", diz o infectologista Marcos Boulos, da Universidade de São Paulo. Cada vez mais alopatas, de fato, admitem que se recorra aos medicamentos homeopáticos, porque percebem melhoras em alguns pacientes - desde que não se abandone o tratamento convencional, evidentemente.

Crer ou não: eis a questão sobre a homeopatia 
Fonte: [Revista Veja]