União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

Falar com Deus

J. Garcelan 

“Digo-vos: as preces não chegam a Deus senão quando passam pela porta do coração”. A frase é de nosso querido codificador Allan Kardec. Não me recordo no momento onde está inserida, mas é um bom exercício para os espíritas pesquisarem e constarem o que aí estou afirmando.

Quando criança, aprendi com minha mãe a orar. Mas minha genitora, como espírita que é, não ensinou orações mecânicas, isto é, frases ditas como se fossem poemas que deveriam ser repetidos todos os dias, principalmente ao deitar.

Na minha infância (e isso já faz muito tempo), não havia uma pedagogia infantil espírita e muito menos livros da doutrina destinados as crianças. Por isso, meu pai colocou-me em uma escola de ensino básico paroquial, no interior de uma igreja e ali tive uma educação religiosa, além de aprender a ler e escrever. Criei gosto pela leitura e acabei virando um “rato de biblioteca”, como se diz popularmente.

Mas a freqüência aos Centros Espíritas, principalmente a Federação Espírita Paulista era constante, pois minha mãe como médium cumpria sua tarefa e eu, pequerrucho, a acompanhava, tirando longas sonecas enquanto se desenvolviam os trabalhos. 

Como seria bom que todas as crianças tivessem uma educação religiosa nos dias de hoje, não importa a crença, desde que seja direcionada para o bem. 

No Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XXVIII – Coletânea de Preces Espíritas em seu Preâmbulo – item 1 diz:

Os Espíritos sempre disseram: “A forma não é nada, o pensamento é tudo. Orai, cada um, segundo as vossas convicções e o modo que mais vos toca; um bom pensamento vale mais que numerosas palavras estranhas ao coração.” 

“Os Espíritos não prescrevem nenhuma fórmula absoluta de preces; quando as dão é para fixar as idéias e, sobretudo, para chamar a atenção sobre certos princípios da Doutrina Espírita.

É também com o objetivo de ajudar as pessoas que têm dificuldades para expressar suas idéias, porque existem as que não crêem ter realmente orado, se seus pensamentos não forram formulados.” (IDE -1984- Tradução Salvador Gentile). 

Lembro-me ainda que naquela época, início da década de 40, os espíritas, mesmo os mais esclarecidos, ainda se apegavam ao sincretismo (resultado de séculos e séculos de uma religião predominante).

Havia os que ainda mesmo freqüentando assiduamente as searas espíritas não conseguiam se desraigar de certos costumes religiosos a que haviam professado.

Lembro-me de meu pai dizer de quando necessitava orar para falar com Deus; “vou ao meu quarto e lá me tranco e me confesso diretamente ao Pai.”

Isso é apenas um comentário sobre aqueles tempos. Felizmente e rapidamente as coisas mudaram. As pessoas estão começando a compreender e entender como falar com Deus.


Existem doutrinas orientais que ensinam como se concentrar, ou se desligar do mundo que o cerca para meditar e em seguida orar e isso nada tem a ver com misticismo.

São técnicas psicológicas (se bem que eles não entendem assim). Nós espíritas podemos, a exemplo de nossos irmãos orientais, fazer o mesmo, em qualquer lugar, sem nos atermos a um local qualquer.

Muitos Centros Espíritas se localizam em locais movimentados e barulhentos, no entanto, os médiuns conseguem, desligando-se totalmente do burburinho e de seus problemas pessoais, concentrar-se e cumprir com seus deveres.


Cada um tem uma maneira muito pessoal de se desligar e se concentrar para uma oração ou realizar seu trabalho na Seara Espírita.

No meu caso, quando no início de minha vida mediúnica, tinha um método: fechava os olhos, e começava a contar com a mente de l00 para trás, ou seja, 99, 98, 97, 96...

E assim, lentamente, ia me desligando do mundo exterior. Raramente chegava aos 50.

A partir daí estava completamente voltado para os trabalhos espirituais e minhas orações partiam de meu coração muitas vezes, ou a maior parte delas, junto com lágrimas de emoção.

Hoje, não utilizo mais esse método, mas quem quiser experimentar... Esteja onde estiver, consigo me desligar e orar, mesmo porque, cercado como estamos, por irmãos doentes, temos necessidade de ORAR E VIGIAR, como nos foi recomendado.

Em agindo desta forma, estaremos sempre cercados por bons amigos da espiritualidade.

Lembrem-se, meus irmãos, Deus e nossos amigos tutelares nunca se afastam.

Nós e que nos afastamos deles com nossas ações erradas. Nosso Pai ali está juntinho de cada um de nós.

Por isso, basta um pensamento sincero e comovido para alcançarmos as graças que merecemos, de acordo com a nossa evolução espiritual e a lei de Causa e Efeito.

O Pai não revoga suas próprias leis, mas há sempre um lenitivo para cada ocasião.

Há um velho dito popular que diz “Deus fecha uma porta e abre outra”. No Velho Testamento há o salmo 30:5

“O choro pode durar uma noite; mas a alegria vem pela manhã.”

Na verdade, estamos falando com Deus cada vez que tratarmos nosso semelhante e as outras criaturas com respeito e carinho;

quando olhamos para o céu com suas núvens formando figuras estranhas;

quando vemos as árvores com suas cores vivas e suas flores coloridas;

quando olhamos pequenos insetos percorrendo nosso jardim ou as aves cantando alegres;

quando sentimos a chuva molhando a terra e abastecendo nossas necessidades fisiológicas;

quanto o sol com seu calor nos aquece e faz com que as sementes germinem para nos alimentar. Deus está em toda parte.

E para encerrar vou contar uma pequena história:

João, um velho escravo, todos os dias antes do sol nascer saia em direção ao eito com sua ferramenta.

A chegar, o sol começava a aparecer.

João pegava sua enxada, colocava-a em pé e com o queixo encostado na ponta do cabo, olhava para o “astro-rei” e dizia

– sinhô eu estou aqui! –


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Publicado no Jornal O CLARIM- Ano CI – N.9, Abril, 2007.