União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

Pesquisa por Casas Espíritas Afiliadas

As crianças que estão nascendo hoje são diferentes?

Escritora e jornalista Espírita - Eugênia Maria Pinheiro Ramires 

 

 

 

 

As crianças que estão hoje renascendo na Terra são diferentes das que renasciam anteriormente, no tempo de nossos pais e avós?

De um modo geral sim, praticamente todas. Mas algumas, em número cada vez maior, demonstram mais evolução em vários aspectos. Estão chegando para nos ajudar a evoluir.

Só que aqui encontram dificuldades em se adaptar ao nosso mundo, pela nossa falta de entendimento de quem são elas e de como podemos educá-las de forma adequada. As pessoas também estão ficando mais inteligentes como pôde ser constatado cientificamente em várias pesquisas realizadas ao longo dos anos,demonstrando uma evolução nesse sentido.

 

Por que os pais estão tendo dificuldades de lidar com essas crianças? O que nos tem faltado?

Nas minhas palestras e cursos sempre faço questão de colocar, em primeiro lugar, a necessidade urgente de mudar nossos velhos costumes, deixando entrar, junto com o amor, a disposição para o estudo, para entender quem são essas crianças, quais os seus valores, o que elas pensam e como podemos contribuir para a sua formação.

Isso é fundamental, pois muitas vezes os pais pensam que estão preparados, mas não estão. Essas crianças são diferentes. Precisamos entendê-las para saber lidar com essa nova situação. O que falta é assumirmos nossa ignorância para crescermos em nossas responsabilidades como pais de forma mais objetiva e voltada para a formação integral dos nossos filhos.

Temos que disponibilizar mais tempo para convivências, para estudos e para a discussão do que realmente é importante nesse processo. Diferentemente do que aprendemos com nossos pais e avós, temos que buscar informações, entender o mundo de hoje, pois essas crianças estão vindo em número cada vez maior, colocando, literalmente, o mundo de pernas para o ar, como Kardec já prenunciava há mais de um século.

 

Como lidar com essas crianças? O que precisamos modificar? O que fazer?

Muitas vezes é colocado que o pai e a mãe não colocam limites a essas crianças. Só colocar limites não resolve. Precisamos, sim, impor as regras básicas de conduta, mas de uma forma com que a criança entenda e concorde.

Não podemos simplesmente dizer que isso é certo e aquilo é errado. Educar é explicar, dar exemplos, mostrar os porquês. Às vezes isso pode até exigir uma postura mais enérgica, mas sempre seguida de diálogo, de colocações que justifiquem o nosso comportamento. No caso do adolescente, ele já tem uma idéia do que é certo e errado, mas precisa ser orientado e para isso temos que dar bons exemplos, para que ele cresça aprendendo.

Já dizia Kardec, no Livro dos Espíritos, que “a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos”. Portanto, temos que nos abrir para que ele faça perguntas, ou explique suas condutas para podermos orientar.

Mas para isso temos que nos despir dos velhos conceitos e preconceitos, entendendo os novos valores que ele procura seguir. Com o tempo e com os nossos exemplos ele vai saber se posicionar. Impor limites é uma necessidade, mas precisamos aprender a fazer isso, para não piorarmos a situação.

 

Algumas crianças têm momentos de grande irritação, mesclados com momentos de carinho. Por que isso acontece?

 

A irritação surge porque eles não sabem lidar com a frustração. Essa geração tem um alto QI (Quociente de Inteligência) e um baixo QE (Quociente Emocional). Hoje se dá uma grande ênfase ao QI, mas devemos dar uma importância maior ao QE. O QE está ligado às emoções, à sensibilidade, ao amor e à compreensão.

 

Qual a contribuição da Doutrina Espírita para lidar

com essas crianças?

 

A Doutrina Espírita é, sem dúvida alguma, a principal fonte de orientação e inspiração para trabalharmos as novas formas de educar. Ela nos explica quem são essas crianças e qual a nossa função, como pais e educadores, em relação ao que Kardec chamou de A Nova Geração. E como ele também dizia, temos que nos instruir para saber nos conduzir na vida. E isso inclui a educação dessas crianças que estão chegando, cada vez mais inteligentes e por isso mesmo precisando cada vez mais do nosso apoio e da nossa compreensão. Temos que entender esse novo mundo em transformação para podermos dar a essas crianças uma orientação adequada.

 

Os nossos evangelizadores precisam se preparar para trabalhar com essas crianças? O que é necessário fazer? Tem como dar um exemplo prático em uma sala de evangelização?

Da mesma forma que os pais e educadores, os evangelizadores também precisam estar preparados. E mais ainda, precisam evangelizar não apenas ensinando os conceitos básicos, como fazem na maioria das vezes, mas trabalhando o comportamento, dando exemplos, orientando para a vida, sempre à luz dos ensinamentos espíritas e do Evangelho que Jesus nos deixou com suas lições de como nos conduzir nas mais diferentes situações. Conhecer o Espiritismo é condição fundamental, mas os evangelizadores precisam também se preparar, buscando conhecimentos pedagógicos e a melhor metodologia para trabalhar junto com essas crianças e jovens e não apenas impondo informações sem lhes despertar o interesse e acirrar sua curiosidade.

Já estamos vivendo as grandes transformações previstas para o início do terceiro milênio. Portando, são essas crianças e jovens que estão iniciando a construção dessa nova fase da humanidade. Essas mudanças dependem totalmente da formação dessa nova geração. E não existe local mais apropriado para que possam conhecer a assumir essa responsabilidade do que as casas espíritas, pelos conhecimentos que precisam ser adquiridos desde a infância. A sala de evangelização não pode mais ser uma sala de aula comum, mas um local de encontros onde todos possam crescer juntos, pois esses alunos não são mais aqueles acomodados e comportadinhos, como fomos nós, nossos pais e avós. 

 

Eles estão chegando para trabalhar nessa grande transformação rumo à nova era. Portanto, são seres humanos dotados de inteligência aguçada que nos instigam e buscam extrair o que temos de informações e mais ainda, de conhecimentos que possam ajudá-los em suas indagações evolutivas. Hoje se exige muito mais dos evangelizadores e isso é muito bom porque eles também estão aprendendo e crescendo.

Também é importante, sempre que possível, manter contatos com os pais, para que eles possam complementar esses ensinamentos em casa, com motivação e bons exemplos.

 

Em umas de suas palestras em Uberlândia você abordou o “Criar ou Educar”. Em poucas palavras é possível esclarecer aos nossos leitores essa diferença? Será que estamos mais criando do que educando?

Sim, pois na maioria das vezes estamos dando às crianças aquilo que elas esperam como recompensa ou castigo pelo que fazem, mas sem a preocupação de orientar, ensinar, mostrar com exemplos. Dar boa alimentação, boa escola, presentes, não é educar, é criar. É assim que criamos os animais, com boa comida, conforto e medicamentos.

 

Só que hoje, com a nova geração, já não existe mais espaço para a lei da compensação, mas sim para a educação no seu verdadeiro sentido de orientação para a vida.

Sem percebermos, as crianças dos nossos dias nos cobram insistentemente posicionamentos adequados e respostas coerentes, pois são mais inteligentes e em muitos casos, moralmente superiores.

Muitas pessoas detestam ouvir isso pelas próprias dificuldades de se prepararem para a verdadeira educação, mas temos que dizer que a única forma de obtermos dessas crianças e jovens o respeito e a obediência é nos capacitarmos para enfrentar essas situações com posturas morais elevadas e com informações e conhecimento dessa nova situação. Só assim teremos condições de exercer sobre elas a nossa autoridade. Antes, bastava dizer “sim, sim, não, não” Agora, temos que explicar. E às vezes não é tão fácil quanto imaginamos ou quanto gostaríamos que fosse.

 

Qual o papel do lar na formação dessas crianças?

 

 

O lar é o nosso verdadeiro laboratório. É nele que educamos, errando e acertando, procurando acertar mais e errar menos, mas sempre trabalhando, burilando os conceitos, os sentimentos, as razões de um e de outro, preparando nossos filhos para a vida solidária, coletiva, social, produtiva e espiritual. Infelizmente, no mundo consumista e competitivo de hoje, cada vez mais os pais estão transferindo para as escolas a tarefa de educar, quando a função da escola é ensinar, embora os professores tenham, muitas vezes, também que dar educação. A criança, mesmo sendo um espírito com um histórico de muitas vidas passadas, quando chega é, mais uma vez, um ser em formação que precisa de muita atenção dos pais e professores.

 

Deixe uma mensagem aos nossos leitores.

 

Em primeiro lugar, nunca desanimar, insistir sempre, abrir o coração e os espaços para o diálogo permanente e quando isso não for possível, dar bons exemplos, para que a criança possa refletir sobre seus atos e suas aspirações. Temos que buscar inspiração nas leis divinas, nos ensinamentos espíritas, na nova educação, voltada para a vida e não só para o mercado de trabalho, com menos competitividade e mais crescimento espiritual. Já dizia Santo Agostinho, no Evangelho Segundo o Espiritismo, na mensagem A Ingratidão dos Filhos: “Quando produzis um corpo, a alma que nele encarna vem do espaço para progredir. Inteirai-vos dos vossos deveres e ponde todo o vosso amor em aproximar de Deus essa alma. Tal a missão que vos está confiada e cuja recompensa recebereis, se fielmente a cumprirdes. Os vossos cuidados e a educação que lhe dareis auxiliarão o seu aperfeiçoamento e o seu bem-estar futuro.”

 

Eugênia Maria Pinheiro Ramires. Jornalista nascida em Fortaleza (CE), e atualmente residente em Jales (SP), ela é autora do livro Crianças Esquecidas.

Espírita desde a infância e ligada ao Grupo de Estudos Espíritas em Jales e coordenadora de cursos de estudos espíritas, além de expositora espírita.