União das Sociedades Espíritas
Intermunicipal de Piracicaba

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O CANTINHO DE ANDRÉ LUIZ, pela Escritora - isabelscoqui@yahoo.com.br

COMPREENSÃO NA MORTE

É lamentável que as religiões pouco preparem os seus adeptos para a morte. Aguardando serem arrebatados para o juízo final, ou esperando um lugar privilegiado num céu inexistente, muitas entidades vagueiam perdidas pelas regiões obscuras do plano espiritual, sem condições de entender a própria condição.

E permaneceriam assim se não fosse o trabalho de grupos socorristas que as resgatam e as levam para instituições beneméritas, onde tratadas retomarão a consciência e serão mergulhadas na vida corpórea. Para ilustrar as nossas considerações, vamos citar um trecho do livro “Nosso Lar”, ocasião em que os Samaritanos fizeram o resgate de muitos sofredores.

André Luiz estava presente e querendo ajudar, foi ao encontro de uma velhota, que procurava descer do último carro, com muita dificuldade. Ao se deparar com ele, a mulher benzeu-se e agradeceu a saída do Purgatório. Informou que, lá, malditos demônios a torturavam. Nosso amigo ajudou-a a descer e mostrou interesse, deixando-se conduzir pela curiosidade, interrogou-a a respeito de onde estivera.

A pobre criatura, percebendo interesse, passou a explicar-se. Contou-lhe que fora na Terra uma mulher de bons costumes, muito religiosa. Ao sair do mundo, não sabendo por qual arte de Satanás, fora cercada por seres monstruosos, que a arrebataram num verdadeiro turbilhão. Ficara enclausurada, mas não perdera a esperança de ser libertada, pois deixara dinheiro para a celebração de missas após a sua morte.

André perguntou-lhe a razão de sua permanência naquelas paragens, mas ela disse não saber. Porém sabia que, na Terra, ninguém estava livre de pecar. Seus escravos provocavam confusão e, de vez em quando, se via obrigada a aplicar disciplinas.

Não raro um negro morria no tronco, para servir de corrigenda a todos. Outras vezes, era obrigada a vender escravas, separando-as dos filhos. Naquelas ocasiões, sentia-lhe morder a consciência, mas confessava-se, recebendo a absolvição e ingerindo a hóstia sagrada, ficando em dia com todos os seus deveres para com o mundo e para com Deus.

André escandalizou-se e disse-lhe que os escravos eram igualmente nossos irmãos. Perante Deus, são filhos os servos e os senhores, sem discriminação. A mulher irritou-se. Bateu o pé autoritariamente e redarguiu que escravo é escravo. O padre Amâncio disse-lhe que os africanos eram os piores entes do mundo, nascidos para servirem em cativeiro. Não podia se encher de escrúpulos no trato com essa espécie de criaturas. Sua morte foi antecipada por causa deles. Achava-se adoentada, quando o padre trouxe a notícia de que a Princesa havia libertado esses bandidos.

Como poderia ficar no mundo com essa gente em liberdade? Chocada, confessou-se com dificuldade e faleceu a seguir. Mas os demônios também pareciam ser africanos e viviam à sua espreita, sendo ela obrigada a sofrer-lhes a perseguição até então. André perguntou quando desencarnara e ela respondeu que viera em maio de 1888. Talvez seus sobrinhos tivessem esquecido de pagar as missas, embora tivesse registrado essa vontade em testamento. Nosso amigo ia responder, fornecendo-lhe ideias novas de fraternidade e fé, mas Narcisa aproximou-se e o advertiu.

Esquecera-se ele de que estavam providenciando alívio a doentes e perturbados? Que proveito tinham aquelas informações? Os dementes falam incessantemente e quem os ouve, gastando interesse espiritual, não pode ser menos louco.

A mulher perguntou a Narcisa se essa observação era destinada a ela. A enfermeira, usando tato psicológico, disse que não. Mas que descansasse, pois seu esforço purgatorial devia ter sido longo...A velhota começou a repetir a mesma história. Narcisa, porém, experiente em tais circunstâncias, pediu a ela que não comentasse o mal. Conhecia a sua história.

A seguir, providenciou para que a pobre mulher fosse conduzida a um leito de tratamento. André relatou esse fato por volta de 1938, portanto cinquenta anos depois da desencarnação da pobre mulher. Após esse longo período, ela ainda esperava uma condição espiritual confortável através da ação de terceiros (missas). Não tinha convicção de que seu sofrimento se devia aos maus tratos perpetrados contra seus escravos, porque acreditava que através da confissão fora absolvida.

Não sabemos como se desenrolou esta história, mas com certeza, nossos amigos espirituais tiveram muito trabalho para levar àquela criatura alguma conscientização dos verdadeiros valores morais da vida. Provavelmente despertou para a realidade, entendendo que o maior ato religioso de um ser é “Amar ao próximo como a si mesmo” e, ciente dos seus erros, teve que mergulhar na carne para, pouco a pouco, se retratar perante a Lei Divina.